A Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo (CCDR Alentejo) apresentou, na Quinta da Malagueira, em Évora, o projeto ENA – Espaço Natureza do Alentejo, uma iniciativa que pretende criar um espaço regional dedicado à educação ambiental, à interpretação da natureza, à valorização da biodiversidade e à participação das comunidades.
A sessão contou com a presença do presidente da CCDR Alentejo, Ricardo Pinheiro, e da vice-presidente Sónia Ramos, responsável pela apresentação da visão e do conceito do projeto. Estiveram também presentes os vice-presidentes Aníbal Reis Costa, Henrique Sim-Sim, Helena Cortes Cavaco, Silvino Alhinho e Marciano Lopes, assim como representantes de várias entidades parceiras, entre os quais o presidente da Câmara Municipal de Évora, Carlos Zorrinho, a vereadora Carmen Carvalheira, Helena Perdigão, em representação da União das Freguesias de Malagueira e Horta das Figueiras, e Duarte Leal da Costa, em representação da família do Conde da Ervideira, historicamente ligada à Quinta da Malagueira.
Durante a apresentação, João Carlos Farinha, chefe da Divisão de Conservação da Natureza e Bem-estar Animal, deu a conhecer o conceito do futuro ENA e as potencialidades da Quinta da Malagueira para acolher um espaço de âmbito regional dedicado à educação ambiental, à biodiversidade e à participação cidadã.
Com cerca de seis hectares, a Quinta da Malagueira é apontada pela CCDR Alentejo como um local particularmente adequado para o desenvolvimento do projeto, devido às suas características ambientais, paisagísticas e patrimoniais. A área exterior integra floresta, bosques, lagos e outros elementos naturais, além de um património histórico associado à criação de jardins e espaços verdes.
“Temos um espaço extraordinariamente adequado a este projeto, que é o espaço exterior da Quinta da Malagueira, no coração da cidade de Évora”, afirmou Sónia Ramos. A vice-presidente considera que o local pode assumir uma dimensão que ultrapasse a simples visitação, tornando-se “uma grande referência no distrito de Évora de educação ambiental”.
O conceito do ENA assenta em três eixos fundamentais — acolher, experimentar e participar — e pretende proporcionar experiências de contacto direto com a natureza, aprendizagem e sensibilização ambiental. A proposta contempla uma sala de acolhimento, espaços interpretativos, estações pedagógicas ao ar livre e percursos dedicados a temas como o bosque mediterrânico, as aves, os polinizadores, a geologia, as árvores notáveis e os habitats naturais da região.
A ligação à Rede Natura 2000, a conservação da natureza e a promoção da literacia ambiental são também áreas centrais do projeto, que pretende aproximar escolas, cidadãos, investigadores e visitantes do património natural alentejano. Para Sónia Ramos, o espaço poderá funcionar como uma verdadeira “sala de aula ao ar livre”, embora ressalve que “nada substitui a sala de aula”. A experiência direta no terreno, explica, permitirá aos alunos relacionar os conteúdos que aprendem nas diferentes disciplinas com aquilo que encontram no território.
A primeira fase do projeto deverá privilegiar precisamente as escolas, sobretudo as que se encontram mais próximas da Quinta da Malagueira. A opção está relacionada não apenas com a acessibilidade, mas também com a intenção de colocar a educação ambiental no centro da iniciativa.
“Nós queremos muito que os nossos alunos conheçam primeiro o seu próprio território”, sublinhou a vice-presidente da CCDR Alentejo, defendendo que o contacto com a biodiversidade local deve anteceder outras experiências de descoberta. A responsável reconhece que as escolas procuram frequentemente equipamentos fora da região, mas considera importante que os jovens conheçam primeiro “a biodiversidade da sua própria terra e de uma quinta que está aqui ao lado de todos”.
O arranque do projeto deverá passar por uma intervenção de limpeza do espaço exterior, sobretudo dos trilhos e percursos, de forma a garantir condições de circulação e segurança. A sala de formação existente, onde decorreu a apresentação, já reúne condições para funcionar como espaço de acolhimento dos visitantes. “Assim que a quinta esteja limpa, do ponto de vista da mobilidade dentro da quinta, em segurança naturalmente”, a intenção é avançar com as primeiras estações pedagógicas ao ar livre, explicou Sónia Ramos. Numa fase posterior, a CCDR pretende, em articulação com a academia, avaliar a criação de estruturas e equipamentos complementares.
O projeto deverá, assim, ser implementado de forma faseada e condicionada também pela existência de oportunidades de financiamento. A primeira etapa será dedicada à visitação e às atividades com escolas, seguindo-se o alargamento progressivo dos serviços e das valências destinadas à comunidade e à investigação.
A participação da comunidade é, aliás, uma das dimensões que a CCDR Alentejo pretende reforçar. A proposta prevê o envolvimento de escolas, associações, agrupamentos e outros grupos, incluindo através de iniciativas de voluntariado, onde segundo a vice-presidente da CCDRA, “objetivo é envolver as pessoas nestas tarefas”, defendendo que os cidadãos devem sentir que a Quinta da Malagueira também lhes pertence e que podem contribuir para a sua preservação. A vertente comunitária, acrescentou, é uma das dimensões a que a CCDR atribui “muita prioridade”.
Nesse sentido, o projeto está a ser pensado em articulação com várias entidades, entre as quais a Universidade de Évora, o Município de Évora, a União das Freguesias de Malagueira e Horta das Figueiras, a Évora_27, a Liga para a Proteção da Natureza e organizações educativas e associativas da região.
A academia deverá assumir um papel relevante, nomeadamente no acompanhamento e na monitorização ecológica da quinta. Entre as possibilidades está o desenvolvimento de iniciativas de ciência cidadã relacionadas com árvores, borboletas, morcegos, polinizadores e flora.
A ligação ao território e à própria evolução urbana de Évora é também uma das dimensões destacadas pela CCDR. A Quinta da Malagueira está associada ao bairro da Malagueira, que assinalará 50 anos em 2027, ano em que Évora será Capital Europeia da Cultura. Sónia Ramos defende, por isso, que o ENA poderá contribuir para a criação de “um corredor verde na cidade, de um pulmão verde a começar na Quinta da Malagueira e estender-se pelo bairro e por toda a cidade”.
A responsável sublinha, contudo, que o projeto não está fechado. Pelo contrário, deverá evoluir de acordo com os contributos dos parceiros, as necessidades identificadas e as oportunidades que forem surgindo. “Será sempre um projeto dinâmico, vai estar sempre em construção”, afirmou.
A ambição da CCDR Alentejo é que o Espaço Natureza possa, no futuro, assumir uma dimensão científica e até internacional. A ideia passa por criar condições para acolher projetos mais complexos, envolvendo investigadores e doutorandos, e explorar novas funções para o espaço exterior da quinta.
“Temos aqui um projeto muito ambicioso, que pode vir a ser internacional”, afirmou Sónia Ramos, admitindo ainda que a Quinta da Malagueira poderá evoluir para um espaço com funções associadas a um “refúgio climático”.
A apresentação do ENA terminou com uma visita à Quinta da Malagueira, permitindo aos participantes conhecer no terreno as características e potencialidades do espaço.
Mais do que apresentar um projeto fechado, a CCDR Alentejo pretendeu lançar uma reflexão e mobilizar parceiros em torno de uma futura estrutura regional dedicada à natureza. A proposta coloca a educação ambiental, a biodiversidade e a participação cidadã no centro de uma estratégia que procura aproximar a população do património natural do Alentejo e transformar a Quinta da Malagueira num espaço de aprendizagem, experimentação e envolvimento comunitário.










