São mais de 80 as peças que se distribuem pelas estantes do Núcleo de Arte Pastoril que esta terça-feira abriu portas na Rua das Piçarras, em Redondo. A coleção foi cedida por António Carmelo Aires ao Município, trazendo para o presente peças que saíram das mãos de “ilustres desconhecidos artistas” – vamos chamar-lhes assim – mas que trazem consigo a paisagem alentejana decalcada entre artefactos que foram resistindo ao avanço da história.
E o que escolhe o colecionador no meio de tanta arte? Lá está a salseira, de 1894, feita com corno bovino. “É a peça com maior perfeição. Aquilo que ali está nem parece feito pelo homem, mas por uma máquina, com tudo certinho e no mesmo sítio”.

Depois uma pequena mala, também em corno, os chavões ou pitadeiras, que serviam para diferenciar o pão nos fornos comunitários e enfeitar os bolos na Páscoa. Há uma peça que tem o autor e o destinatário gravados – coisa rara entre peças que demoravam anos a fazer.
Também por ali anda uma flauta de amolador de tesouras, parecida com uma outra que vem publicada num livro de Giacometti. “Mas esta é mais elegante”, afirma Carmelo Aires, relatando como esta paixão pelo colecionismo da arte pastoril nasceu há cerca de 40 anos quando comprou uma cadeira com pequenas rodas de latão a Bernardino Piteira, na rua da Moeda, no centro de Évora.
“As rodas seriam para ajuda ao transporte de deficientes dentro de casa ou uma imitação de cadeiras mais requintadas”, conta-nos, revelando que tem mais peças. Cerca de 200, ao todo, congratulando-se por estar a contribuir para levar traços da história da paisagem alentejana ao museu que Redondo abriu ao Mundo. Para que a memória não se perca.










