Mariana Vieira, docente convidada do Departamento de Música da Escola de Artes da Universidade de Évora (DMUS/EArtes), foi distinguida com uma Menção Honrosa no âmbito do Prémio Musa 2025, uma iniciativa dedicada à promoção da criação contemporânea na área da composição musical.
Este reconhecimento surge numa fase particularmente significativa do seu percurso artístico. A compositora sublinha que “fica sempre feliz com o reconhecimento do [seu] trabalho”, destacando que a obra premiada representa também uma viragem no seu caminho criativo: “o uso da voz e da palavra na composição é um aspeto que durante uma fase inicial do meu percurso ficou para segundo plano, e esta peça representa o que espero ser um novo caminho”.
Para Mariana Vieira, distinções desta natureza desempenham um papel relevante na afirmação dos compositores contemporâneos. “O impacto é real pela possibilidade de ver as nossas peças materializadas – isto é, saírem da partitura para serem interpretadas”, afirma, sublinhando a importância da performance enquanto etapa essencial no desenvolvimento artístico.
A obra distinguida, intitulada Escuro, parte do poema “Buraco negro: o silêncio do escuro”, de Ana Luísa Amaral. Sobre a escolha do texto, a compositora refere duas impressões determinantes: “contraste (entre escuridão e luz)” e “inquietação”, elementos que orientaram a construção do discurso musical. O processo criativo desenvolveu-se a partir dessas imagens iniciais, evoluindo para a construção de material sonoro próprio. “Foi um processo que partiu de alguns materiais já criados para piano e para voz, cuja associação à semântica se deu de forma relativamente intuitiva”, explica.
No plano estético, Mariana Vieira procurou criar um universo sonoro marcado por ambiguidade tímbrica e tensão expressiva. “Na peça foco-me em timbres difusos e pouco claros – como o timbre de uma voz soprano no registo grave, entre o canto e a fala, ou a exploração de ressonâncias exploração de ressonâncias de diferentes células musicais no registo grave do piano”, descreve. Esta dualidade entre luz e escuridão traduz-se igualmente numa exploração colorística que atravessa toda a obra, nomeadamente na relação entre voz e piano.
O silêncio, elemento já presente no título do poema, assume também um papel estruturante. “Principalmente a partir do trabalho do pedal no piano, que tem um papel fundamental em criar uma sensação de vazio/silêncio”, refere, apontando para uma escrita que valoriza a ressonância e a suspensão sonora.
A estreia da obra está prevista para o Festival Projeto: Canção, momento aguardado com expectativa pela compositora: “Aguardo com muito entusiasmo os ensaios e a estreia da peça, que será realizada por intérpretes de excelência”.
Paralelamente à sua atividade artística, Mariana Vieira desenvolve investigação no âmbito do doutoramento em Composição, mantendo uma estreita ligação ao Centro de Estudos em Música (CESEM) e ao Grupo de Investigação em Música Contemporânea (GIMC). “Encontro pares com quem posso debater e aprender, e confrontar-me com novos pontos de vista”, salienta.
A sua atividade docente na Universidade de Évora constitui igualmente um espaço de reflexão e transformação. “Tem sido um desafio muito empolgante revisitar a minha prática artística e pensar como posso partilhar e potenciar a aprendizagem de ideias e formas de fazer”, afirma, acrescentando que este processo contribui para “descobrir processos novos” e revisitar criticamente conceitos anteriormente adquiridos.

