O Governo autorizou recentemente o abate de mais de 3.450 sobreiros na Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS), através de dois despachos publicados em Diário da República com cerca de duas semanas de diferença. Entre eles, destaca-se o despacho n.º 4024/2026, que reforça a autorização inicial e amplia significativamente a área de intervenção.
Numa primeira fase, foi permitido o corte de 450 sobreiros distribuídos por 10 lotes. Já o despacho mais recente autoriza a remoção de mais 3.006 árvores, abrangendo quatro lotes numa área total de 13,81 hectares. Estas intervenções visam preparar terrenos para projetos industriais ligados à transição energética, nomeadamente nas áreas do hidrogénio verde, amónia verde, energia solar e produção de baterias de lítio.
A responsabilidade pela preparação dos terrenos recai sobre a AICEP Global Parques, entidade encarregue de disponibilizar os lotes já infraestruturados às empresas investidoras. Entre os principais projetos previstos para a região estão iniciativas do consórcio MadoquaPower2X, uma fábrica de baterias da empresa chinesa CALB e ainda uma central solar associada à atividade da Repsol Polímeros. No conjunto, estes investimentos ultrapassam os 4.000 milhões de euros e beneficiam do estatuto de Potencial Interesse Nacional (PIN).
Contudo, o impacto ambiental associado levanta preocupações. A área total necessária para acolher os quatro projetos ascende a 74,8 hectares e implica o abate de 13.449 árvores, entre as quais 2.475 sobreiros. Recorde-se que o sobreiro, classificado como Árvore Nacional desde 2011, é uma das espécies mais protegidas pela legislação portuguesa. Como compensação, está prevista a plantação de 11 hectares de novos sobreiros nas imediações, medida que tem sido considerada insuficiente por vários críticos.
Esta não é a primeira vez que decisões deste tipo geram controvérsia no Alentejo Litoral. Em 2023, o abate de 1.821 sobreiros para a instalação do parque eólico de Morgavel motivou forte contestação pública, incluindo uma petição com milhares de assinaturas e um processo judicial no Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja.
O caso volta agora a colocar no centro do debate as contradições da transição energética, evidenciando o desafio de conciliar o desenvolvimento de uma economia mais sustentável com a preservação de ecossistemas consolidados, como o montado de sobro, reconhecido pelo seu valor ambiental e capacidade de captura de carbono.

