É o Alentejo, a História e a vivência Católica do Alentejo. Um dia, há umas boas décadas, Dª Maria Inês de Barahona foi uma das grandes promotoras das peregrinações de Évora até ao Santuário de Fátima. Numa altura em que não existia qualquer apoio ao caminhante; nem de voluntários nem das autoridades, como a Guarda Nacional Republicana ou a Polícia de Segurança Pública. Partiam, a pé, em direcção ao local de aparição da Mãe de Cristo, sem “rede”. Os Crentes caminhavam estrada fora, como podiam, correndo todos os riscos por conta própria. Sem coletes reflectores, sem apoio médico, de enfermagem ou, mesmo, psicológico.
Hoje, em 2024, tudo mudou. E quem ajuda a essa mudança? O filho de Dª Maria Inês de Barahona, voluntário no apoio aos peregrinos, pela Ordem de Malta.
“Há 10 ou 12 anos que sou voluntário da Ordem de Malta, que faço este trabalho de apoio aos peregrinos que se dirigem ao Santuário de Fátima. A Ordem faz dois tipos de apoio; temos postos fixos e móveis. No Sul é tudo postos móveis, no Norte e Centro há postos fixos”, diz o filho de Maria Inês de Barahona, Luís de Barahona Pessanha, em declarações à Rádio Campanário.
“Vamos de encontro ao peregrino e não o peregrino ao nosso encontro”
E explica: “postos móveis no Sul porque há várias peregrinações que passam por diversos caminhos. Nós vamos de encontro ao peregrino e não o peregrino ao nosso encontro”.
Mas, quando sentiu Luís de Barahona Pessanha o apelo para fazer este trabalho de voluntariado? “Lá em casa sempre houve a tradição de se ir a pé a Fátima. A minha Mãe foi umas das principais pessoas que levou os grupos de Évora a Fátima”. “Depois apareceu um amigo que era Cavaleiro da Ordem de Malta que nos desafiou. E a minha mãe, como também ia a peregrinar nessa altura, em que nem se falava no apoio [aos peregrinos]”, achou uma boa ideia, porque “nessa altura era tudo diferente, agora isto está totalmente diferente, dantes não havia apoio”.
“Quando fomos as primeiras vezes para o terreno, quando lá aparecíamos, não tínhamos ninguém, porque toda a gente tinha medo dos tratamentos, das massagens, não queria”. Ao fim de uns “tempos passou a haver mais divulgação e agora até muitas exigem que os voluntários lá estejam para fazer os tratamentos e para ajudar”, diz Luís de Barahona Pessanha à Rádio Campanário.
Quanto ao número de peregrinos, diz este voluntário da Ordem de Malta que existem cada vez mais. “Sim, talvez do Sul tenham diminuído nestes últimos tempos, mas, de uma forma geral, penso que existem mais peregrinos (…) tenho noção que, aqui no Sul, desde a Covid existem menos”.
E se o voluntário Luís vir um peregrino cansado? Aconselha-o a não caminhar mais? “Não. Normalmente apoio o peregrino a caminhar, conto-lhe a minha experiência, trocamos impressões. O que acho importante é que eu, como voluntário que já estive do outro lado, sei muitas vezes da necessidade das pessoas que vêm ao nosso encontro, até para desabafarem, uma coisa simples, desabafarem da vida, é um alívio”.
“É um tempo em que a pessoa desliga, é um momento de descontracção, um outro mundo, outro contexto. Acho que é importante haver esta interacção”, diz Luís. Será por isso que acaba por ser uma espécie de “confessor”?. Talvez.
“Ainda hoje cheguei aqui e encontrei uma senhora que não via há 3 anos. ‘Ah, aquele senhor é conhecido que já me tratou’. Dá-me bastante alegria [o facto] de as pessoas me fixarem”.
Luís de Barahona Pessanha, voluntário da Ordem de Malta, fez hoje o acompanhamento a três peregrinações entre Montargil e Foros do Arrão. Quantas massagens e pés tratou? “Não sei de cor. Mas foram muitas”.
Entrevista de Augusta Serrano; Texto de Carlos Caldeira

