As Festas em honra de Nossa Senhora da Boa Nova, em Terena, no concelho de Alandroal, deram início ao processo de candidatura ao Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, numa iniciativa que reflete a conjugação de esforços entre diversas entidades locais e regionais, tal como a Rádio Campanário noticiou a 16 de março. O projeto é liderado pela Confraria de Nossa Senhora da Boa Nova, em articulação com a Universidade de Évora, contando ainda com o apoio de instituições religiosas e autárquicas.
O arranque formal do processo foi confirmado durante a romaria deste ano. Em declarações aos jornalistas, o juiz da Confraria, Nuno Pereira, explicou que já foram dados os primeiros passos para uma candidatura abrangente, que pretende integrar não apenas a vertente religiosa, mas também os elementos culturais, etnográficos e gastronómicos associados à festividade.
A intenção passa por documentar e preservar um conjunto diversificado de práticas que caracterizam esta tradição secular. Entre elas, destacam-se as promessas dos fiéis, as ofertas, as peregrinações ao santuário e costumes gastronómicos típicos, como o assado de borrego. Para Nuno Pereira, embora estas práticas continuem vivas, é fundamental assegurar o seu registo formal, garantindo a sua transmissão às gerações futuras.
A candidatura está a ser desenvolvida com o apoio técnico da Universidade de Évora, que colabora no levantamento histórico e documental. Segundo o responsável da Confraria, já foram identificados documentos com vários séculos de existência, incluindo estatutos datados do século XVI, que evidenciam a profundidade histórica da devoção.
O processo encontra-se em andamento e envolve várias entidades, entre as quais a Diocese e o Município de Alandroal. Reuniões recentes com representantes institucionais, incluindo o Arcebispo e o presidente da autarquia, demonstram o empenho coletivo em concretizar a classificação.
Também Carlos Fidalgo, membro da Confraria, sublinha que esta é uma iniciativa de longo prazo, alertando para a importância do trabalho de investigação ainda por desenvolver. O responsável destaca a relevância de documentos históricos já identificados e acredita que o processo permitirá descobrir novos elementos sobre a história da romaria. A próxima fase passará por envolver a comunidade, incentivando a população a partilhar testemunhos e registos antigos relacionados com a festividade.
Entretanto,explica que “já foi efetuado o registo inicial na matriz do Património Cultural Imaterial, um passo considerado essencial para a formalização da candidatura”.
O registo inicial na matriz do Património Cultural Imaterial (PCI) em Portugal, realizado através da plataforma online MatrizPCI, é o primeiro passo oficial para a inclusão de uma tradição, prática, saber ou expressão cultural no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.
Este registo constitui a formalização do pedido de inventariação perante a Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) ou as Direções Regionais de Cultura, sendo fundamental para a salvaguarda e reconhecimento legal de um bem cultural imaterial.
O registo inicial é o ponto de partida. Após a submissão, o processo passa por etapas de verificação documental e, caso aprovado, resulta na inscrição definitiva no Inventário Nacional, que é a única forma de proteção legal do PCI em Portugal.
Entre os principais objetivos está a preservação desta manifestação cultural e religiosa, bem como a valorização do Santuário de Nossa Senhora da Boa Nova, potenciando a sua atratividade ao longo de todo o ano.
O presidente da Câmara Municipal de Alandroal, João Grilo, manifestou total disponibilidade para colaborar, destacando a importância do património histórico, religioso e cultural do concelho. O autarca recorda ainda o valor do santuário — considerado o mais antigo santuário mariano a sul do Tejo, com origens nos séculos XIII e XIV — e garante que a sua valorização tem sido uma prioridade municipal, através de intervenções de conservação e projetos futuros.
Caso venha a ser aprovada, a classificação representará um reconhecimento acrescido para uma tradição profundamente enraizada na identidade local, contribuindo para a sua salvaguarda e projeção.
Realizadas anualmente no fim de semana seguinte à Páscoa, as Festas de Nossa Senhora da Boa Nova — também conhecidas como Festas dos Prazeres — continuam a atrair milhares de fiéis e visitantes ao santuário, classificado como Monumento Nacional desde 1910. Com origens no século XIII, esta romaria mantém vivas práticas transmitidas ao longo de gerações, afirmando-se como um dos mais significativos testemunhos culturais e religiosos do Alentejo.

