ENTREVISTA RC: “A COVID-19 pode ter implicações cognitivas, alterar a memória e criar altos níveis de ansiedade” diz Coord. Nac. da EFPSA (c/som)

Entrevistas 14 Out. 2020

A Saúde Mental é um tema cada vez mais debatido nos dias de hoje. Um assunto sobre o qual durante muito tempo pouco ou nada se falava, não sendo considerado uma doença.

Atualmente a European Federation of Psychology Students’ Associations (EFPSA) está a realizar a 7ª campanha “Mind the Mind – to Combat the Stigma of Mental Disorders”, presente em treze localidades de Portugal, sendo que uma delas é a cidade alentejana de Évora, que recebe este ano a campanha pela primeira vez.

Em entrevista à Rádio Campanário, Joana Filipa Lopes, Coordenadora Nacional de Portugal da EFPSA e psicóloga, explica em que consiste a campanha e qual o seu objetivo.

“É uma campanha que ocorre a nível europeu, este ano novamente em Portugal (…). O trabalho tem como principal objetivo promover a educação em torno da Saúde Mental e combater o estigma que ainda é uma realidade muito presente. Fazemo-lo através de workshops interativos e psicoeducativos, ou seja, vamos a escolas, empresas ou organizações. Temos um público alvo muito amplo, desde jovens dos 13 aos 18 anos e também adultos, falamos sobre o que é a Saúde Mental, a sua importância, abordamos algumas psicopatologias de uma forma muito comunicativa e interativa e abordamos também a importância de pedir uma ajuda profissional, um acompanhamento de um psicólogo e deixamos sempre alguns contactos pertinentes”, explica.

Neste momento, e até dia 25 de outubro, a “Mind the Mind” está a realizar uma recolha de voluntários em Évora, “estudantes de psicologia ou psicólogos que disponibilizem uma pequena parte do seu tempo para dinamizar a campanha em conjunto com os coordenadores locais”.

Em Évora estes coordenadores irão, em conjunto com os voluntários, “preparar a campanha no sentido de escolher os locais onde vão dinamizar os workshops. Temos sempre o workshop preparado, já rigorosamente feito, com materiais que são revistos a cada edição e adaptados, mas é sempre possível, para cada voluntário, para cada equipa que vai dinamizar um workshop, adaptar à turma, ao local onde vai estar, àquilo que acha que é o mais correto de abordar também segundo a solicitação que podemos receber ou não do local”.  

Nas localidades onde estão presentes, o contacto para dinamização de workshops pode ser “a partir de nós enquanto campanha e enquanto equipa ou então fazerem-nos uma proposta”.

A recolha de voluntários acontece num momento específico, porém o trabalho da “Mind the Mind” acontece durante todo o ano, “no final deste mês esperamos ter a equipa de voluntários constituída e os restantes meses são de trabalho em que vamos aos locais, dinamizamos os nossos workshops e vamos também criar conteúdos para as nossas redes sociais”.

Sendo esta a primeira vez em Évora, a coordenadora nacional explica que já se está a trabalhar no programa e a realizar contactos, mas ainda não há um “plano de atividades definido”.

Apesar de as escolas e a sua população serem um dos objetivos, este ano estão também a tentar chegar a uma população mais adulta, pois “sabemos que os locais de trabalho são sítios que impactam bastante o psicológico”.

Sobre o “estigma” que está associado à Saúde Mental e o que realmente este significa, Joana Filipa Lopes conta que ainda “há uma “crença” de que as doenças psicológicas são esquemas que as pessoas por vezes inventam para se desculpar de não querer ir a aqui ou ali, quando no fundo são problemas muito reais e devem ser tratados de igual forma como os problemas de saúde física”.

É um estigma que ainda existe e que faz com que a Saúde Mental não seja muitas vezes tida como algo sério. Porém, “o impacto no bem estar geral dos indivíduos” é “bastante significativo”. Enquanto psicóloga, Joana Filipa Teles sente que há “um desconhecimento daquela que é a nossa profissão, das nossas possibilidades de atuação e de ajudar os indivíduos que passam por psicopatologias, havendo sempre o estigma da ida ao psicólogo”, pois é algo que ainda se vê como “um ato de alguém que não está bem, que está descompensado”. A psicóloga alerta que “todos precisamos em algum momento da vida de ir a um psicólogo, não apenas quando sofremos de uma perturbação, mas até para melhorar a nós mesmos enquanto pessoas, enquanto profissionais, para conseguirmos levar um estilo de vida mais calmo, mais tranquilo, lidar com as exigências do nosso dia a dia. Nem todos aqueles que vão ao psicólogo têm necessariamente de ter um problema”.

Questionada se as pessoas ainda sentem medo de dizer que sofrem de uma doença mental, afirma que “sim”, porém garante que “já percorremos um grande caminho”.

Sobre o medo de admitir a doença e procurar ajuda explica que acontece “porque as pessoas não conhecem as psicopatologias, não estão informadas sobre os seus contornos, sintomas, causas, e sobre como lidar com alguém com essa perturbação e isso acaba por dificultar o relacionamento e as pessoas. Tendo consciência de que isto acontece, sentem algum receio em partilhar com os seus colegas, amigos ou até familiares, o que é complicado porque quanto mais ajuda, melhor o tratamento em termos clínicos”.

Para ajudar uma pessoa que necessite de apoio psicológico, Joana Filipa Teles revela que “o mais importante é estar atentos aos comportamentos das pessoas e não desvalorizar comportamentos que nos parecem por vezes estranhos. É muito importante estarmos atentos aos nossos familiares e amigos, perceber como é que se sentem, perguntar sobre o seu dia, dar-lhes abertura para que possam vir ter connosco para procurar ajuda”.

Contudo, explica que a ajuda que se pode dar sem ser em termos clínicos é “limitada e devemos sempre reencaminhar para um acompanhamento mais profissional, nomeadamente psicológico”.

No passado sábado, dia 10 de outubro, assinalou-se o Dia Internacional da Saúde Mental. Quanto à importância de existir um dia dedicado ao tema, a psicóloga acredita que é uma “mais valia” e um dia onde se unem esforços de várias entidades para falar sobre a temática, o que é “muito importante porque existe esta desinformação e este estigma” e deve-se “fomentar o interesse das pessoas em saber mais sobre o que é que é isto da Saúde Mental”.

Recentemente, a Administração Regional de Saúde do Alentejo formalizou a criação das três primeiras equipas de apoio domiciliário para adultos do Alentejo na área da saúde mental, que vai chegar a utentes do concelho de Beja, Castelo de Vide, Évora e Marvão. Sobre a importância de este tipo de equipas, a psicóloga reitera a necessidade de existir “é importante que existam estas respostas, sobretudo nas linhas de redes primárias, para que as pessoas não estejam sozinhas e recebam apoio especializado para o seu problema e que possam desta forma recuperar. É também sempre muito importante quando é possível contactar com familiares e com amigos para lhes dar algumas luzes de como gerir a situação da melhor forma, porque cada caso é um caso”.

Sendo os problemas mentais possíveis de acontecer em qualquer faixa etária, conta que a principal diferença entre os mais jovens e os adultos em aceitarem esta doença está relacionada com “o contexto geracional em que cresceram”. Mas o mais importante é “levar as pessoas a aceitarem aquilo que sentem. Explicar que é normal, que todos passamos por diversas emoções ao longo das diversas fases da nossa vida. É importante fazer uma ligação entre aquilo que estamos a sentir naquele momento, a emoção que vivemos, e o porquê de a estarmos a viver”.

Por fim, questionada sobre os efeitos que a COVID-19 pode ter na saúde mental dos portugueses, explica que “há implicações notórias, sobretudo no processo de isolamento porque o ser humano é um ser muito social e quando privado do contacto com outros reage de uma forma não tão simples como no dia a dia. Tem muitas implicações para a forma como nos sentimos, para as emoções, mas também para o nosso dia a dia, é normal que a capacidade de trabalharmos e sermos produtivos não seja a mesma que é numa situação dita normal, porque todos temos níveis de stress, de ansiedade e medo em níveis superiores”.

A psicóloga explica que a COVID-19 “gera muita ansiedade, muito nervosismo”. Revela ainda que ainda se vai “ver qual é o real impacto”, porém já têm “surgido informações de que parece haver implicações em termos cognitivos que podem resultar, a quem testa positivo à COVID-19, nomeadamente, dificuldades em pensar, entre outros mecanismos cognitivos como a memória, que parecem ser afetados pelo vírus. É importante estarmos mais do que nunca atentos à saúde psicológica daqueles que nos rodeiam para minimizar ao máximo os riscos que essa situação acarreta”.            

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