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Vila Vicosa

“A direção da Cáritas de Vila Viçosa esgotou-se. Os ecos que chegaram foi de que o serviço não era tão bom”, diz Arcebispo de Évora (C/ FOTOS E SOM)

Entrevistas 05 Ago. 2020

O Arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, deu posse, esta quarta-feira, à Comissão Administrativa de Gestão, de carácter Ad Hoc, da Cáritas Paroquial de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, que será liderada pelo Diácono Luís Delgadinho Oliveira Rodrigues, que também é presidente da direção da Cáritas Diocesana de Évora.

Em declarações à Rádio Campanário, D. Francisco Senra Coelho, refere que a constituição desta Comissão surge na sequência de um ofício, enviado a 11 de março, pela antiga direção da instituição, que “cumpriu o seu mandato”, dizendo que “não estava disponível para ser reconduzida por prorrogação, porque se encontrava muito desgastada e com dificuldades para liderar a instituição, e também não aceitava a renovação de mandato por mais quatro anos” e explica que “sendo uma Cáritas Paroquial, pertenceria ao Cónego Francisco Santanita Couto a missão e dever, pelo direito próprio de pároco, de constituir uma direção, segundo a sua confiança, para levar para a frente esta grande instituição já com 30 anos”.

Porém, “o Cónego Francisco Santanita Couto também sentiu muita dificuldade em constituir uma nova direção e na carta que escreveu pedia para que a Arquidiocese de Évora, na pessoa do Arcebispo, assumisse a responsabilidade da instituição”.

D. Francisco Senra Coelho refere que esta Comissão Administrativa Ad Hoc é criada “exatamente para governar esta casa e fazer as funções próprias da direção, até que consigamos encontrar uma envolvência de unidade e de entendimento, de tudo o que é necessário para que os serviços desta instituição sejam os melhores e de excelência, ao serviço dos seus idosos e das suas crianças, nas suas diversas valências”.

Para o Arcebispo, “o entendimento que faço desta situação tem a ver com certo desgaste”, salientando que “as instituições vivem momentos muito difíceis, que tem a ver com a problemática muito desequilibrada entre aquilo que cada idoso pode dar das suas magras e, injustamente, reduzidas reformas, aquilo que a Segurança Social confere mensalmente nos acordos de cooperação e aquilo que efetivamente cada idoso gasta. Entre 1.050 a 1.150 euros é o que custa um idoso num serviço de acolhimento e as instituições têm de encontrar essa diferença entre o que o idoso consegue dar, que é 80% da sua reforma, e aquilo que a Instituição recebe da Segurança Social, ficando uma diferença muito grande para preencher por cada idoso”.

D. Francisco José alerta que “as direções, neste momento, debatem-se com problemas muito grandes” e que “há várias instituições, que têm a tutela na Arquidiocese, e muitas Santas Casas da Misericórdia que estão a viver dos seus mealheiros, de acordos bancários através de empréstimos caucionados e que todos os meses vão-se socorrendo dessas formas de superar as dificuldades. Porém, esta não é a solução, ou seja, há possibilidade muito plausível de instituições, com grande responsabilidade de idosos e também de crianças, de não conseguirem superar as dificuldades, ou seja, de entrar em rutura económica e algumas, porventura, encerrarem”. O clérigo frisa que “será muito grave o encerramento de lares de idosos”.

“Isto gere um cansaço psicológico às direções e uma situação de desencanto, porque não se pode prestar um serviço com qualidade quando não há o mínimo de meios. E esta direção [Cáritas de Vila Viçosa] esgotou-se. E isto depois ressente-se nos funcionários, nos diretores técnicos, nos servidores especializados e esta instituição reflete um cansaço perante as dificuldades com que se tem debatido e os problemas que tem enfrentado e chegou ao fim, ou seja, esta direção disse «não aguentamos mais. Não temos mais forças. Vimos pedir à Arquidiocese que nos ajude». E esta foi o meio que a Arquidiocese encontrou, de trazer um grupo de voluntários especializados para fazer uma Comissão Administrativa Ad Hoc, para tentarmos fazer aqui as mudanças que acharmos necessárias que encontrarmos como importantes e absolutamente impreteríveis, de tentar unir os funcionários para voltarmos a constituir uma direção desta instituição de Vila Viçosa, para ela voltar à sua dimensão genuína e original, que é a sua autonomia, os seus estatutos, com 30 anos de percurso”, conta D. Francisco Senra Coelho.

O Arcebispo de Évora refere que esta Comissão vigora de forma temporária por três anos, “em seis semestres, ou seja, de seis em seis meses será renovado o mandato e terá que ser justificado porque é que foi renovado. Para isso, tem que haver motivos de que a instituição não consegue superar por si”.

D. Francisco Senra Coelho deixa um apelo ao concelho de Vila Viçosa para que “ajude a sua Cáritas. Que tenha uma dimensão de confiança e acredito que esta instituição tem futuro. É necessário rever alguns procedimentos, de organizar algumas dimensões internas e é preciso rever metodologias. Nesta primeira fase, vamos conhecer a casa. Na segunda fase iremos fazer propostas de renovação e depois será aplicar essas mudanças e ver os seus efeitos e quando estiverem apuradas as boas consequências desses efeitos e o êxito dessa mudança, podemos então concluir o nosso trabalho e acreditar que em Vila Viçosa vai haver gente com disponibilidade de arregaçar as mangas e levar a Cáritas Paroquial de Vila Viçosa em frente”.

“Estamos aqui com profundo respeito por esta vila e por este povo e estamos para servir toda a ação em forma de voluntariado e a Arquidiocese sente a sua responsabilidade de, neste momento em que a Cáritas passa por uma dificuldade, intervir, para que ultrapasse as suas dificuldades e volte a ser ela mesma”, garante.

O clérigo refere que “ainda não fizemos um levantamento das dificuldades, valência por valência”, mas que “os ecos que chegaram à Arquidiocese não foram tanto de «mal-estar dos utentes», chamemos assim. Nós sentimos maior dificuldade na unidade interna do funcionamento, ou seja, a necessidade de criar uma equipa unida, coesa e em funções. Os ecos que chegaram foi de um certo desejo do serviço ser melhor e que o serviço não era tão bom, porque era necessário que a equipa tivesse maior coesão. Mas são coisas que nós ainda não podemos aferir com toda a verdade e realismo, porque eu tive duas reuniões com os responsáveis técnicos, uma reunião com o pároco e tive duas reuniões com a equipa que vai fazer este serviço. Portanto, ainda não temos um levantamento”.

D. Francisco Senra Coelho chamou a atenção para um aspeto “a Cáritas de Vila Viçosa tem uma organização desafiante, porque não está concentrada num sítio, não tem uma sede única, pois vai a várias freguesias. Isto gera despesas acrescidas de transporte e gera uma circunstância que torna mais difícil a unidade, porque não estamos a trabalhar todos no mesmo sítio. A equipa que trabalha na mesma casa, que partilha a refeição juntos, que tem um trabalho em sede única, encontra uma unidade mais facilmente que a dispersão. Eu admito que haja dificuldades de alguns funcionários quase nem se encontrarem e nem se verem, porque trabalham em sítios diferentes. Vamos ter de construir e edificar essa linha. Neste momento, a nossa leitura é muito prudente, porque temos de conhecer a casa. Vamos tentar ouvir os utentes, queremos conhecer bem como estão a ser tratados, queremos conhecer as instituições das crianças, queremos ouvir os funcionários, queremos escutar as problemáticas, para depois dizermos alguma coisa”.

Para o Arcebispo, “neste momento, a prudência, a escuta, o conhecer a instituição e o terreno que pisamos é fundamental. É precoce ainda emitir opiniões porque não são muito fundamentadas, porque ainda não temos conhecimento do funcionamento da instituição”.