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EXCLUSIVO: Miguel Araújo fala sobre o Prémio Pessoa, o Alentejo, as Alterações Climáticas e sobre a sua paixão, a Investigação Científica (c/som)

Grande Entrevista ao investigador de Évora galardoado em 2018

Publicado em Entrevistas 06 abril, 2019

Galardoado com em 2018 na 32ª edição o Prémio Pessoa, no valor de 60 mil euros e que é uma iniciativa do semanário Expresso e da Caixa Geral de Depósitos, Miguel Araújo nasceu em 1969, em Bruxelas, é geógrafo, investigador da Universidade de Évora e professor em Copenhaga e Londres, especialista em biodiversidade e Alterações Climáticas. Já tendo recebido vários outros prémios, igualmente emblemáticos, como o Prémio Ernst Haeckel, atribuído pela Federação Ecológica Europeia, também o ano passado, ou o Prémio Rey Jaime I, em 2016, o mesmo diz que o seu interesse pela área começou desde pequeno, com o seu avô. É um apaixonado pela ciência e pelo trabalho e sua investigação, desenvolvida em Portugal, na Dinamarca e em Espanha, tem sido crucial para definir as melhores práticas para a modelação das alterações da biodiversidade, no do tempo e no espaço, e para avaliar as consequências das atividades humanas no planeta. No ano passado abriu um hotel para receber e dar formação a cientistas em Évora.

A Campanário fez uma grande entrevista ao homem que agora também faz parte do Conselho Nacional de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, ao mesmo tempo que coordena a estratégia de adaptação do Alentejo face às Ondas de Calor, derivadas das Alterações Climáticas. Apesar de tudo, Miguel Araújo espera que nada tenha mudado em si, e que “seria bom que houvesse uma continuidade” no trajeto que ou trouxe até aqui. Leia e ouça aqui a entrevista conduzida por Augusta Serrano.

Nasceu em 1969 em Bruxelas e veio para Portugal com cerca de 5 anos para. Nessa altura, recorda-se o que é que já queria ser quando crescesse?

Quando era mais pequenino eu queria ser ‘transplorador de grutas’, era a expressão que eu usava. Mas mais tarde com 11 anos, formou-se na minha cabeça a ideia de que queria ser zoogeógraofo, que é a ciência que estuda a distribuição dos animais.

Aí é que começou a verdadeira caminhada…

Eu penso que uma pessoa começa a caminhada desde que nasce, é tudo um processo. Mas, neste caso eu penso que foi um processo longo. Eu dava muitos passeios no campo, quando era pequeno, com o meu pai, depois tinha conversas com o meu avô, que caçava em Moçambique e também tirava fotografias – chegou mesmo a receber prémios de fotografia de natureza e de fauna, tiradas no Parque Nacional da Gorongosa – e ele contava muitas histórias de aventuras e em mim, obviamente uma criança, começou-se a gerar um interesse pela natureza, pela fauna e pela flora, com estas pequenas influências.

Daí como é que chegou até às preocupações face às alterações climáticas?

Isso já foi mais tarde. Quando estava a terminar o Doutoramento. Até ao ano 2000 eu trabalhava muito na área da conservação pura e dura, com a definição de áreas importantes para a conservação, onde é que nós devemos estabelecer um parque natural.

Obviamente que, para muitos ambientalistas, gostaríamos que todo o território fosse conservado, mas isso não é possível, existem outras atividades económicas, cidades, florestas, agricultura, portanto a conservação tem que se fazer em harmonia e articulação com todo o território. E a minha área de trabalho era justamente procurar otimizar isso, procurar determinadas áreas que eram importantes para a conservação, sem entrar em conflito com outras áreas.

Quando eu terminei o Doutoramento, no ano 2000, a questão das Alterações Climáticas, já estava bastante na ordem do dia (apesar de muito menos do que está agora), mas a questão que se me colocou foi: estas áreas que nós identificamos para a conservação, podem, daqui a uns anos, não ser aqui, porque se o clima muda e a localização das plantas e dos animais muda, em consonância com o clima, os valores naturais que justificam a preservação deste espaço podem-se deslocar para outro sítio. Por isso, iniciei todo um trabalho que procura, de certo modo, prever as alterações na distribuição da vida e de que maneira é que isso influência depois as Políticas Públicas em Conservação.

Porque nós, enquanto espécie humana, como outras, temos essa tendência a grupar-nos.

Sim. A verdade é que uma das grandes perguntas que os biogeógrafos se fazem, desde os tempos remotos, desde começou a biogeografia, quando nós começámos a viajar, quando nós começámos a sair da Europa e a ir para paragens muito diferentes, uma das grandes observações e das grandes estupefações é que os ambientes eram muito diferentes. As pessoas tinham saído de Portugal, Espanha, Holanda, Reino Unido e de repente deparavam-se com ambientes completamente diferentes, com faunas e floras muito diferentes.

Isso fez com que os cientistas que iam nos barcos, porque os barcos geralmente levavam pelo menos um cientista a bordo – que eram geralmente ecléticos, eram geógrafos, biólogos, etnógrafos, antropólogos – começassem a comentar as diferentes formas de vida, sendo que o primeiro biogeógrafo, o alemão Alexander von Humboldt, que quando saiu numa expedição patrocinada pela Alemanha, ele foi com o objetivo de medir tudo e foi munido de vários instrumentos para quantificar e medir tudo. Foi ele que pela primeira vez formalizou esta ideia de que as espécies diferentes têm tolerâncias diferentes ao clima. Há umas que estão mais adaptadas a climas quentes, outras mais frios, e tendo informação desse grau de tolerância das espécies ao clima nós poderíamos começar a perceber porque é que elas se distribuíam da maneira como se distribuíram.

Mais tarde, outro grande biogeógrafo, Alfred Russel Wallace, que muitas vezes é conhecido como o pai da Biogeografia, que era uma pessoa pobre, com poucos recursos, ao contrário de Darwin, de quem era contemporâneo, ele viajava muito porque apanhava espécies e plantas, classificava-as e enviava-as para os museus e ganhava dinheiro assim. Ele foi a primeira pessoa que começou a ordenar um bocadinho esta cacofonia de espécies e distribuições de espécies diferentes e criou as chamadas “regiões biogeográficas”.

A Austrália tem um tipo de fauna muito diferente do que têm outras regiões, depois temos a região Afro-Tropical, a região do Paleártico, onde incluí a Europa e parte da Rússia, da China. Ou seja, ele classificou o mundo em regiões, tendo em conta a composição das espécies e aí introduziu, além da questão do clima, a questão da Evolução. A razão porque os cangurus estão na Austrália e não estão por exemplo aqui no Alentejo, não tem a ver com o clima, tem a ver com a origem dos cangurus, que se originaram aí e nunca conseguiram sair de lá. Portanto, a questão da mobilidade é, depois do clima, o grande constrangimento à distribuição das espécies.

Algo que se está a alterar agora porque nós humanos, com o comércio internacional, transportamos muitas espécies e criamos espécies invasoras que colonizam certos territórios e que têm impactos. Na Austrália é conhecido, por exemplo, que a introdução do coelho criou muitos problemas. A introdução também dos gatos domésticos, tem um impacto brutal aí.

Eu estive na Austrália e vi a nossa oliveira com um comportamento invasor. Ao contrário daqui, no Alentejo, onde que há uma invasão no sentido da paisagem, há muitas oliveiras porque elas são plantadas e não saem do sítio onde estão, mas não há uma colonização das oliveiras fora do controlo. Na Austrália eu vi rios a serem colonizados pelas oliveiras como cá as acácias invadem o nosso território.

Quando nós tiramos essas espécies do ambiente natural, onde evoluíram, onde são muitas vezes limitadas na sua distribuição, não só pelo clima, mas pelo terceiro fator, que são as interações biológicas com outros organismos, na Austrália a oliveira ainda não tem organismos que limitam o seu crescimento. Com climas idênticos, com solos idênticos, cá não se espalham de forma invasora e na Austrália sim.

No que diz respeito à espécie Humana, o que é que está a mudar, qual é a forma de nos podermos adaptar às Alterações Climáticas?

Nós somos uma espécie muito adaptável. Originalmente, aparecemos em África, há cerca de 200 mil anos, e saímos de África e a primeira grande invasão biológica foi a dos humanos fora de África, ao chamado “out of África” e que gerou aliás um processo de extinção em massa há cerca de 40 mil anos atrás, da chamada megafauna, aves como mamíferos, na América Latina estima-se que cerca de 85% da megafauna desapareceu nessa altura. Houve de facto uma extinção em massa da em todos os continentes, exceto em África, de animais de porte grande e esta exceção é interessante: porque o único continente que não foi afetado com essa extinção em massa foi o continente onde os homens já existiam e evoluíram e tinham, portanto, o homosapiens não era uma espécie invasora em África. Foi uma espécie invasora na Europa, na China, na Austrália e na América do Norte e do Sul, causando grandes impactos.

Mais tarde, tivemos mais dois processos de extinção importantes, um tem a ver com o neolítico, a expansão da agricultura e a transformação dos ambientes naturais, o que causa impactos grandes. Mas possivelmente uma que teve um grande impacto e que foi de certo modo silenciosa, foi a extinção nas ilhas oceânicas, em virtude dos Descobrimentos.

Quando os portugueses, os espanhóis e os holandeses iam para a Índia e depois paravam em ilhas, alimentavam-se, procuravam comida, havia ratos que saiam dos barcos, ratazanas que colonizavam as ilhas com impactos dramáticos numa fauna que não estava preparada para a predação pelos ratos e ratazanas. Por outro lado, nós deixávamos normalmente cabras, para quando se voltasse houvesse carne para comer. Acontece que as cabras são extremamente destrutivas e esses ambientes não estavam preparados para herbivoria das cabras e houve muitas extinções também de plantas associadas também a pastoreio excessivo de cabras que não tinham predadores.

Daí atá às Alterações Climáticas…

Achei que era importante fazer um bocadinho esta introdução, porque o chamado Antropoceno, a era geológica que é dominada pelo impacto humano, começou na realidade, no mínimo com os Descobrimentos, possivelmente antes. Agora, obviamente estamos numa faze diferente, onde o nosso impacto não é apenas local, é um impacto global.

Nós já afetamos a circulação da atmosfera, afetamos os oceanos, estamos a alterar o clima global numa escala completamente diferente do que foi antes.

Como é que se pode inverter essa situação? Até que ponto o tecido empresarial e económico tem responsabilidades nesta situação?

As Alterações Climáticas têm que ver com a transferência de carbono, que existe no subsolo e que foi acumulado durante milhões de anos, o petróleo e o gás natural, que foi retido no solo pela biosfera, as plantas, e que nós estamos agora a usar para produzir energia a libertá-lo pra atmosfera. Há uma transferência de carbono, do solo para atmosfera. Isso começou de forma muito ampla com a revolução industrial, o que tem a ver com o próprio crescimento económico.

Eu não sei se era possível nós termos tido o desenvolvimento económico, sem essa transferência de carbono.

Acha que um país pode ser rentável utilizando menos essa energia?

Eu penso que pode ser no futuro. O que acontece é que nós, no século XIX, não tínhamos a tecnologia que temos hoje. Naquela altura aquilo foi no fundo uma tecnologia barata disponível, extremamente fácil de utilizar, que nos permitiu viver acima das nossas possibilidades. Porque estamos a viver de um crédito de carbono que estava enterrado no subsolo, que quando sair desaparece, é uma energia que é não renovável. Portanto, estamos a viver desse crédito, que nos permitiu termos um desenvolvimento económico e social, ímpar na História da Humanidade. É bom perceber as duas caras da moeda.

Portanto, este desenvolvimento que nós temos, não teria sido possível sem um consumo de energia muito acima daquilo que nós éramos capazes de explorar, da maneira tradicional, que era basicamente o fuel, a biomassa, a lenha, que era a energia que nós tínhamos disponível até há cento e poucos anos, em que as pessoas usavam o que queimavam de matéria viva. A partir do momento que pudemos utilizar o petróleo, tivemos uma capacidade de crescer extraordinária.

Agora estamos a chegar a uma altura em que ainda há petróleo, da mesma forma que a Idade da Pedra não terminou com as pedras, a idade do petróleo não vai terminar com o petróleo. Nós vamos fazer uma transição energética muito antes do que acabe o petróleo e não porque o petróleo esteja a acabar – até porque existem novas técnicas que permitem extrair petróleo de menos qualidade – mas porque os impactos no clima são extraordinários e nós não nos podemos permitir continuar a consumir petróleo enterrado no subsolo com o ritmo com que fizemos nos últimos cem anos.

Apesar dessa inversão de marcha, enquanto o planeta grita por estar a ser agredido, esse método serve a indústria globalmente, ou é estudado pontualmente? E os métodos para inverter esta situação são diferentes consoante a região?

Quando se fala das Alterações Climáticas e o que temos que fazer há duas abordagens: uma é a mitigação das alterações climáticas, que é reduzir a quantidade de alteração climática que vai haver, o que implica uma medida, que é reduzir a quantidade de emissões de gases com efeitos de estufa, que se consegue descarbonizando a economia, o que é igual na China, como aqui, e a tecnologia para o fazer será a mesma. Há várias opções no mercada e estão a desenvolver-se numa velocidade vertiginosa. Eu penso que neste momento já temos, aliás, a tecnologia para alterar os modos de mobilidade. Hoje em dia usamos carros a gasolina e a gasóleo, mas a tecnologia já existe para que isso não aconteça. O que falta é haver uma transformação social, económica e política para que isso seja possível.

A parte empresarial e de inovação, está feita. Obviamente que não parou e todos os anos vai haver melhorias, ganhos de eficiência, novas formas de aproveitar energia renovável, que ainda hoje não está implementada.

Mas temos este lado da mitigação, que implica descarbonizar a economia, usar menos combustíveis fósseis e libertar menos CO2 para a atmosfera e depois temos a parte da adaptação.

Como é que nós nos vamos adaptar?

Isso depende de cada sítio. Por exemplo, nós aqui no Alentejo, os dois grandes problemas que se avizinham é um incremento da aridez. Há um aumento da temperatura média. Nós com a temperatura média podemos viver muito bem, mas o problema não é o aumento da temperatura média. É o aumento da frequência, intensidade e duração das ondas de calor que está previsto e que que, acontecendo, vai impor desafios muito grandes às comunidades que vivem cá.

Tais como?

Para dar um exemplo muito simples, nós no ano passado tivemos quatro ou cinco dias com temperaturas durante o dia a rondar os 45º C, com muito calor à sombra. E o problema nem era tanto o pico durante o dia, porque as pessoas põem-se em casa, mas é à noite, quando no final destes cinco dias à noite as temperaturas já não desciam e estávamos à volta dos 30º C à noite. Em parte, porque os edifícios vão acumulando calor, libertam-no, mas, entretanto, há uma bolha de calor por aqui e de facto 30º C é insuportável, é quase pior do que 45º C durante o dia.

Isto foi uma onda de calor durante cinco dias. Os modelos preveem que para o final do século, não estaremos cá, mas os nossos netos estarão, estas ondas de calor podem chegar a ter cinco semanas. É para além do limite da capacidade humana.

Há pouco dizia que é muito adaptável, aí conseguiria adaptar-se também?

A grande arma de adaptabilidade, não do ser humano, mas dos seres vivos, historicamente, no sentido biogeográfico do termo, é a dispersão é a mobilidade. Um certo sítio deixa de ser habitável e as pessoas e os animais deslocam-se pra outro sítio. Acontece que nós não somos um lobo, por exemplo, o lobo desloca-se e fica tudo bem, nós temos infraestruturas.

Mas suponha que, com a subida do nível médio das águas do mar Nova York fica de baixo de água, as pessoas que vivem em Nova York podem ir para outro sítio, mas o custo económico social, político, histórico, em termos de Humanidade, a perda que representa que uma cidade como Nova York, Londres, Paris, Lisboa, como áreas muito perto do mar, não é o fim da Humanidade, não é o fim da história, mas é o fim de um capítulo.

Há 21 mil anos estávamos no pico glacear da Europa, havia neves eternas até ao sul de França, ou seja, havia neve constantemente e, por isso, havia muito poucas comunidades humanas a norte dos Pirenéus. Nós vivemos num chamado refúgio climático, a Península Ibérica, a Península Itálica, a Península Balcânica e naturalmente a parte sul do Mediterrâneo. Quando as temperaturas começaram a aquecer, o glaciar terminou, as comunidades humanas deslocaram-se e colonizaram o Norte. Isto é a História da vida no planeta, os climas mudaram também noutros momentos e a maneira de adaptação mais próxima do que é a vida, é a mobilidade. Naturalmente, nós temos uma coisa que os outros animais e as plantas não têm, que é a tecnologia.

A CCDRA pediu-lhe que coordenasse os trabalhos preparatórios para a estratégia regional do Alentejo para fazer face às alterações climáticas, tudo aquilo que nos disse em relação à região já é fruto desse trabalho?

Sim, nós a pedido da CCDRA elaborámos um projeto para submissão ao programa POSEUR – um dos programas dos fundos estruturais europeus para Portugal – ao qual concorreram, ganharam e foi-nos então adjudicada uma primeira parte, começámos os trabalhos e agora estamos à espera que seja lançado a concurso o grosso do trabalho que há provir.

Mas sim, o que será feito no contexto da estratégia regional de adaptação às Alterações Climáticas é justamente pensar em como adaptar-nos no contexto dos cenários que existe. Como, não só ao nível da saúde pública, que é uma área que a mim me preocupa bastante, nomeadamente a questão das ondas de calor.

Eu estava em França em 2003 quando houve uma onda de calor brutal e morreram cerca de 6 mil pessoas diretamente associadas a essa onda de calor. Eu não morri, mas eu orientava um estudante de doutoramento, uma pessoa brilhante, e um dia cheguei ao gabinete e ele estava no chão desmaiado, pelo calor e estamos a falar de uma pessoa de 20 e poucos anos.

Sinal de que essa adaptabilidade é limitada também…

O clima no sul de França é diferente. As temperaturas não excederam os 30 e poucos graus, mas a humidade era tal que, no fundo, era uma temperatura insuportável. Existe uma interação entre humidade e temperatura, 45º C quando é seco, tolera-se mal, e será o equivalente a 35º C húmidos.

A humidade faz com que não se esteja bem à sombra. As pessoas estar em casa e não se está bem, porque transporta o calor e obriga-nos a suar todo o dia.

São os chamados climas tropicais.

Exatamente, que geralmente andam por volta dos 30º C.

Vencedor dos prémios mais prestigiantes à escala global, cerca de 200 artigos nas mais prestigiadas registas científicas do mundo, já trabalhou em diversos países, trabalhar para o país que o viu crescer e lhe deu berço, é diferente?

Eu já vivi mais tempo fora de Portugal do que em Portugal, mas cresci aqui. É aquela fase da vida que marca muito, é aquela faze da vida em que se fazem os amigos, em que se aprende a falar e a escrever, com a família, etc., com as nossas raízes. Eu penso que sim.

Apesar de ter vivido fora muito tempo e me sentir muito bem lá fora, em alguns países, eu costumo dizer que sou primordialmente europeu e do ocidente da Europa. Eu sinto-me bem no Reino Unido, em França, na Bélgica, na Espanha, na Dinamarca, que são tudo países onde vivi e em todos eles eu tenho uma coisinha que gosto e que só há lá e não há em mais parte nenhuma, e Portugal é um deles.

Tem um chamamento especial?

Sim, claro que tem. E faz todo o sentido, aliás, a minha formação foi a escola pública portuguesa, fui apoiado pelo Estado Português, a minha formação universitária e académica, eu tive bolsas também da FCT, portanto eu tenho até uma dívida para com o país. É uma dívida que não é económica, porque não se põe nesses termos, mas é uma dívida de reconhecimento, porque a verdade é que houve um investimento nacional e também europeu, por parte das verbas que foram usadas, nomeadamente para financiar as bolsas da FCT, que são bolsas que têm uma componente de financiamento europeu.

Mas eu tenho uma dívida de gratidão, acho que como todos os portugueses que vivem em Portugal e que, mal ou bem, com todos os problemas que o país tem e todos conhecemos, nós beneficiamos do que o país tem para oferecer.

Acha que falta essa consciência e sensibilidade em muitos de nós, isto é, as pessoas acabam, de alguma forma, por não ser gratas àquilo que o país no fundo também tem feito por cada um de nós?

Não é nada o meu estilo andar a apontar o dedo às pessoas, eu acho que cada pessoa tem a sua experiência e também parte da minha perspetiva um pouco quase que filosófica em relação a estas coisas. Que tem a ver com facto de eu ter entrado saído do país muitas vezes. Eu tenho facilidade em ver a situação desde fora e de dentro também.

Acha que há diferenças?

Sim, eu penso que quem nunca saiu, se calhar, sofreu também alguns dos aspetos mais negativos que se viveram aqui e ficaram, se calhar, mais marcados, negativamente, por alguns episódios e têm alguma dificuldade em ver a realidade para além do ângulo dessa marca. Mas é natural.

Falando de investigadores, quando vi Portugal não dava segurança aos investigadores, não dava carreira, não dava perspetiva de futura, porque havia aquelas bolsas que eram renovadas de três em três anos e depois esperava-se que o próximo governo permitisse e se renovasse outra vez e todos os meus colegas andavam nisso. Quando percebi que não havia um compromisso dos diferentes governos em dar perspetivas de futuro às pessoas que se dedicavam à investigação, eu disse “não, eu aqui não posso ficar”.

Tornou-se pequeno, Portugal tornou-se pequeno para a quilo que eram as ambições e o caminho?

As ambições eram normais. Qualquer pessoa que faz investigação por paixão e faz bem, quer poder continuar. Todos os sistemas de investigação no mundo têm que ser um escadote. As pessoas têm que ser capazes de subir, mas tem que haver uma perspetiva. E é um funil ao mesmo tempo, começa muita gente e depois acaba muito pouco gente, porque há uma grande seleção pelo mérito. Não há nenhum problema que seja assim.

Porque a carreira de investigação pura e dura, onde as pessoas se dedicam exclusivamente à investigação é uma carreira com muita liberdade. As pessoas se não estiverem muito motivadas acabam por chegar a uma altura em que são pagas e não fazem nada. O que não acontece quando se é professor, porque quando se é docente tem que se dar as aulas.

Ora, o investigador que não tem que dar aulas e tem que fazer investigação, ou está motivado ou não faz nada. Portanto, é muito importante que haja um processo de seleção e que seja rigoroso e constante, é o tal funil. É o que existe por exemplo em Espanha, onde o sistema é muito competitivo. Não é fácil ter uma estabilização laboral na investigação, é só para alguns, mas existe esta seleção, onde as pessoas conhecem os critérios, sabem o que é que têm que fazer para chegar lá. Podem não o conseguir fazer, mas sabem o que é necessário e o que é esperado.

Em Portugal, se em Espanha é um funil, em Portugal há uma parede. Se o Einstein quisesse vir para Portugal ofereciam-lhe uma bolsa pós-doc, com uma renovação anual ou trianual. Não pode ser, tem que haver uma diferenciação, tem que haver uma carreira, mesmo que seja muito exigente e que não seja para todos, mas que dá esperança às pessoas, que desenvolvem esta atividade em Portugal, de que é possível exercer essa atividade e que se o fizerem bem serão reconhecidas.

Naturalmente que há uma fase da carreira muito elevada em que toda a gente reconhece o esforço, mas a chave da questão não é apenas reconhecer nessa altura. É ver os sinais anteriores e apoiar quando as pessoas são jovens. Isso é o que distingue uma sociedade realmente desenvolvida e com capacidade de crescimento económico e de inovação, de uma que não.

A sociedade tradicional, como ainda é a portuguesa, é uma sociedade que dá muito valor à senioridade: dá muito valor aos Cristianos Ronaldos, aos Damásios, e agora, pelos vistos, ao Miguel Araújo, desde que ganhou o Prémio Pessoa. Mas, dá às pessoas que alcançam este patamar de projeção internacional ou nacional. Porém, há todo um caminho para se chegar lá. Em países como os EUA, ou a própria Dinamarca, há uma grande preocupação por identificar as pessoas que na tenra idade já denotam dar sinais de poder vir a desenvolver uma carreia interessante e apoiá-las. No desporto existe um bocadinho isso, como o exemplo Cristino Ronaldo.

Falou na motivação. Quanto tempo leva um cientista a pensar no seu trabalho, quantas horas são necessárias?

A ciência um trabalho bastante obsessivo. Depende das fases da vida. Houve uma altura, na fase de arranque, em que uma pessoa começa o doutoramento, eu penso que deixei de ter férias. Tem um custo pessoal que é muito elevado. Assumindo-se que só há uma vida, a pessoa está a queimar muitos anos da sua vida sem férias, sem finais de semana, a trabalhar 11 ou 12 horas por dia, digamos que é um grande custo.

Há alguns trabalhos científicos que implicam, por exemplo, fazer análises de laboratório, que se fazem a um horário, mas quando é um trabalho mais teórico e implica uma componente forte de criatividade e de inovação, é preciso estar muitas horas a trabalhar até que venha aquele momento onde se descobre aquela coisa.

Lembro-me de estar a terminar a minha tese e estar três semanas a escrever a discussão da tese. Escrever é uma maneia de dizer, isto é, a batalhar à volta do texto para tentar encontrar aquele ângulo que me poderia resumir bem a discussão de toda a tese, que é um trabalho importante. E passado três semanas de estar ali à volta do texto, finalmente veio-me a ideia, a inspiração do ângulo, e eu apaguei tudo o que tinha feito. A interpretação pode ser, foi tempo atirado à rua. Não foi. Foi todo o trabalho de desenvolvimento do conceito da ideia que levou finalmente a eu ter encontrado uma ideia que estava feliz e que tenha, portanto, a partir daí desenvolvido.

Nessa alegria, significa que um cientista chega alguma vez a uma conclusão definitiva?

Não, isso não. Nós podemos chegar a conclusões com que fiquemos satisfeitos. Um cientista pode chegar a uma fase em que dique que sobre este tema dou-me por contente, o que não quer dizer que seja a última palavra. É a última palavra na sua vida, fecha a porta, resolve o assunto.

Isso já me aconteceu a mim. Muitas vezes os investigadores estão 10 ou 15 anos a trabalhar num assunto, depois passam a outro. Quando passam a outro e fecham aquele tema, não significa que aquele tema esteja fechado, está fechado para eles. Chegam à conclusão que a sua contribuição no tema chegou ao fim.

Voltando um pouco atrás, falando de cientistas em Portugal, qual é a sua sensibilidade e que noção tem de qual é a qualidade da ciência nas suas variadas áreas?

Acho que já disse isso noutra entrevista, a qualidade da nossa Ciência é bastante boa. Eu comparo com outros sítios e os alunos que eu tenho de Portugal não envergonham nada, muito pelo contrário, tenho até muito orgulho em dizer que a minha melhor estudante de Doutoramento foi portuguesa e foi mulher.

Portanto isso acho que diz alguma coisa, porque eu já tive mais de 20 estudantes, é uma amostra, de várias nacionalidades. O nosso ensino é passível de melhoria, como é óbvio, e o caminho é esse, é melhorar, mas comparado pelo menos com outros países europeus, acho que estamos relativamente bem.

Por outro lado, temos também uma característica, que somos um país de pessoas que trabalham, o português é trabalhador. Isso costumava dizer-se em França, onde o imigrante português tem fama de ser muito trabalhador e podia pensar-se que são só os operários, mas não, não é verdade, o português é trabalhador também a este nível. O português intelectual, que faz teses de doutoramento, que faz investigação, é mais trabalhador do que a média.

Para dar um exemplo. Damasco é um país muito interessante, eles têm uma filosofia de vida que seguem à risca, que é a filosofia dos três terços: as pessoas na vida têm que passar um terço do dia a dormir, um terço a trabalhar e um terço no lazer, com a família e os amigos. O problema disso, naturalmente, é que chega-se às quatro da tarde, às cinco da tarde e vamos para casa, o que em investigação não funciona muito bem, porque na investigação tem que se transpirar muito e tem que se abdicar de muito, porque se não se abdicar, se não houver aquela imersão total nos temas, as boas ideias não veem e a diferença não se faz.

É como também no desporto, tudo o que tenha a ver com alta competição, seja desporto, seja arte, seja ciência, requer um nível de paixão e de dedicação muito grande. São as chamadas profissões vocacionais, ou se tem vocação ou não se tem, não é um horário das nove às cinco, é uma vida.

Eu tenho colegas na Dinamarca que, em privado, dizem que às vezes até preferem contratar estrangeiros porque eles não têm aquela coisa de sair às cinco. (risos) Portanto, os portugueses e mesmo os espanhóis que estão lá, trabalham até à hora que tiverem que trabalhar e ninguém se queixa por isso, até porque as condições de trabalho são muito boas, muito melhores do que cá, por isso as pessoas sentem-se agradecidas por poderem trabalhar lá, terem uns salários à altura e o reconhecimento do seu trabalho. Por isso trabalham e esforçam-se e conseguem, vibram.

De facto, o português é trabalhador, ao contrário do que se possa muitas vezes dizer, o que às vezes nós temos é alguma capacidade de organização.

Entretanto, chegamos ao Prémio Pessoa, o que é que sentiu no momento? Esperava? Como é que foi esse processo, quem é que o informou que foi o vencedor de tão prestigiado prémio?

É até um bocado caricato. Eu fiquei obviamente surpreendido, muito contente, muito feliz como qualquer pessoa, agradecido, essas coisas todas. Mas eu nesse dia tinha posto o telemóvel a carregar na minha mesa de cabeceira. Geralmente ando sempre com o telemóvel no bolso, mas nesse dia esqueci-me por completo do telemóvel e estava a ver uma série na altura, que era o Outlander, nessa noite vi cerca de três episódios e à meia-noite desci para ir dormir e fui ver então o telemóvel: tinha cerca de 50 mensagens, chamadas perdidas, uma coisa completamente fora do controlo (risos).

Então, eram várias pessoas que eu conhecia e que não conhecia, que me tinham tentado ligar, porque basicamente o júri do Prémio Pessoa tinha reunido e é tradição telefonar à pessoa que foi premiada e informar, normalmente é o Dr. Pinto Balsemão que dá essa informação em primeira mão. Não foi possível, porque eu tinha o telemóvel perdido numa outra ponta da casa e nesse dia resolvi descansar. Depois, ainda liguei a um membro do júri, que era o Prof. Viriato Soromenho Marques.

Nas mensagens ninguém dizia nada? Não considerou essa possibilidade?

Ninguém dizia o que é que era, havia chamadas também Reitora. Considerei, mas a mensagem da Reitora era “fala urgentemente com aquele número, a notícia é boa”, mas não tinha dito o que é que era. Depois aquele número, que era do Viriato Soromenho Marques, que é uma pessoa que eu conheço há muitos anos, dizia o mesmo “Miguel telefona-me, é urgente, vais gostar da notícia”.

À meia-noite eu olhei para o telemóvel e pensei que era muito tarde e enviei então uma SMS e disse-lhe “é boa hora para lhe ligar?” e ele durante os quinze minutos seguintes não me disse nada, então eu desliguei o telemóvel outra vez e fui dormir. (risos)

No dia seguinte, às 9 da manhã, depois de levar os miúdos à escola, finalmente falei com o Viriato Soromenho Marques e ele deu-me a boa-nova. Nesse dia, ao meio-dia, ia então ser anunciado pelo Dr. Pinto Balsemão. Ele às 11h telefonou-me, para me dar a notícias, mas já não era, infelizmente, em primeira mão, como ele queria, por este pequeno episódio doméstico.

O que é que mudou no cientista e no homem, antes e depois?

Eu espero que nada, até porque o Prémio Pessoa não é um prémio que se dá por aquilo que uma pessoa faça um belo dia, é uma trajetória. É o reconhecimento de uma trajetória e eu acho que seria bom sinal se não mudasse nada, se houvesse uma continuidade.

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