Gaviao

Existem “instituições que não têm as ETAR’s a funcionar em condições e fazem depósito de detritos no rio” Tejo, afirma presidente de Gavião (c/som)

Existem “instituições que não têm as ETAR’s a funcionar em condições e fazem depósito de detritos no rio” Tejo, afirma presidente de Gavião (c/som) RR/Lusa
Publicado em Regional 09 abril, 2019

Após o último inverno ter sido anormalmente quente e o 4.º mais seco do século, o atual cenário do caudal do rio Tejo preocupa autarcas, ambientalistas e pescadores do Alto Alentejo e Ribatejo. Em entrevista à Campanário, o presidente do Município de Gavião, José Pio, expressou as suas preocupações sobre o estado do rio e os motivos a que conduziram à atual situação, desde os transvasos em Espanha à poluição dos dois lados da fronteira. Nas suas palavras, “basta conhecermos a parte mais a sul espanhola, em Valência, para percebermos quando eu digo que há outras coisas que fazem que o caudal seja reduzido”, acrescentando que os “transvasos são um dos problemas que mais afetam a quantidade de água no rio”, a par da seca, “que nos tem atormentado”.

“Obviamente que a seca também é uma situação nos tem atormentado, mas continuo a dizer que os transvasos são o maior problema do caudal do rio”
José Pio

 

Questionado sobre a fiscalização das cotas de transvaso em Espanha, José Pio afirma desconhecer “se elas são cumpridas se não, mas sei que a APA [Agência Portuguesa do Ambiente] tem obrigação de estar muito atenta, de forma a que o rio, da Barragem de Belver para baixo, não seja um simples regaço, havendo zonas onde a transposição é feita sem recurso a pontes, a pé, sem problema nenhum”.

Por isso, o autarca considera que será responsabilidade da APA e do Ministério do Ambiente, “penso que são as entidades que devem estar atentas e fazer cumprir aquilo que são os caudais mínimos obrigatórios para o rio”. Apesar disso, deixa a ressalva de que “o Município de Gavião não é dos mais afetados”, mas “porque estamos entre duas barragens”, porém “preocupa-me muito, porque influência com toda a certeza, o peixe e mesmo a própria poluição”.

“Hoje há muita dificuldade em encontrar uma lampreia nesta zona”
José Pio

No que diz respeito à modalidade da pesca de lambeira, uma das iguarias da gastronomia local, o autarca explica que “hoje há muita dificuldade em encontrar uma lampreia nesta zona”. Algo derivado também de “outras condições”, como “desde logo, aquilo que foi feito em Abrantes, com um açude sem que teoricamente devia ter condições para que o peixe passasse e isso não acontece”, ao mesmo tempo “a pesca feita sem muito critério, que não permite que os animais passem até à nossa barragem”.

Sobre as medidas a serem tomadas por todos os autarcas da região, sobre esta situação, o presidente de Gavião diz seguir o lema de que “juntos somos mais fortes” para “influenciar mais as entidades responsáveis pelo rio, pelo ambiente, pelos caudais, por tudo aquilo que é necessário”.

“Sinto que muitas vezes trabalhamos de costas voltadas, cada um pensando no seu cantinho, na sua possibilidade de melhorar o seu espaço, o que não beneficia ninguém”
José Pio

Contudo, “infelizmente, também sinto que muitas vezes trabalhamos de costas voltadas, cada um pensando no seu cantinho, na sua possibilidade de melhorar o seu espaço”, algo que “não beneficia ninguém”, lamenta. Por isso afirma a necessidade de “criar uma plataforma que nos permita fazer pressão junto das entidades competentes, para que o rio volte a ser rio e deixe de ser um pequeno ribeiro”.

Por outro lado, a Campanário questionou José Pio acerca da agressividade da poluição sobre o rio, que afirma ter verificado que “o Tejo, em Toledo, já está muito poluído”. Ao mesmo tempo “importa dizer que sabemos que as fábricas de celulose depositam muito no rio, mas o rio quando entra em Portugal já vem poluído, não é uma característica só das nossas fábricas”.

“Sabemos que as fábricas de celulose depositam muito no rio, mas o rio quando entra em Portugal já vem poluído”
José Pio

Por isso, “aquilo que o governo fez, nos últimos tempos, com a limpeza do fundo da zona da barragem do Fratel, beneficiou e muito o rio Tejo”. Porque “as águas, sobretudo na zona do Alamal, em Gavião, são águas límpidas, que permitirão com toda a certeza uma época balnear muito melhor do que a do ano anterior”. Mas “temos que nos manter atentos e verificar que não voltam a acontecer os problemas do ano anterior e dos outros anos”, afirma.

Mas a responsabilidade e a luta não é apenas das autarquias, à imagem daquilo que vêm fazendo movimentos e organizações da sociedade civil, como “Os Amigos do Tejo, a ProTejo, que tratam do rio, que se preocupam com o rio e que têm muitas intervenções naquilo que é a defesa de um ecossistema que é extremamente importante para as nossas regiões”, explica o autarca.

Apesar disso e do recente interesse e preocupação governamentais, colocando o rio Tejo “na agenda do dia”, José Pio duvida se todos estarão a cumprir o necessário para salvaguardar o rio, mas afirma ter a consciência tranquila “porque não depositamos nada, rigorosamente nada no rio Tejo”, mas “não sei se podemos todos estar com a consciência tranquila”.

Pois “há algumas entidades que falam muito e praticam pouco”, afirma, sem querer concretizar ou nomear quaisquer entidades específicas. Sublinhando que no seu concelho “não há qualquer ETAR, qualquer extração de tratamento, que esteja a depositar detritos no rio”.

“Falamos também às vezes de outras instituições e de outros empreendimentos que existem perto do rio e que não têm as ETAR’s a funcionar em condições e fazem depósito de detritos no rio”
José Pio

Todavia, “não falamos só de ETAR’s, falamos também às vezes de outras instituições e de outros empreendimentos que existem perto do rio e que todos, como é conhecimento quase geral, não têm as ETAR’s a funcionar em condições e fazem depósito de detritos no rio”, diz o autarca de Gavião, referindo as denuncias do ambientalista Arlindo Marques, conhecido como o “guardião do Tejo”.

“Se pensarmos só nos últimos cinco anos, qualquer dia temos um esgoto a céu aberto”
José Pio

“A ribeira da Boa Água, em Torres Novas, é um dos exemplos”, acrescenta, “não nos afeta aqui em Gavião, porque é a jusante”, porém “tem afluentes muito perigosos a cair no rio”, mas “não me compete a mim, enquanto autarca de Gavião, estar a denunciar certas coisas que é do conhecimento público e não precisam sequer de denuncia”.

No futuro, o autarca vislumbra duas possibilidades para o rio, “se as condições forem as do último ano, eu acho que o rio Tejo vai voltar a ter futuro”, mas “se pensarmos só nos últimos cinco anos, qualquer dia temos um esgoto a céu aberto”, em vez de um rio. Para evitar isso, “é preciso que o governo continue a perceber que o rio é uma fonte de riqueza, não só pelo peixe, pelas pessoas que lá pescam, mas por todo o ecossistema”.

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