Borba

“Muitas vezes os estudos são feitos e simplesmente vão para gaveta”, refere Eng. Geólogo Victor Lamberto (c/som)

Publicado em Regional 21 novembro, 2018

Em entrevista exclusiva à Campanário, o Eng. Geólogo Victor Lamberto, com ligações e conhecimento consolidado acerca do anticlinal de Estremoz, que abrange também Borba, Vila Viçosa e Alandroal, falou sobre as características da zona onde se deu o abatimento da estrada engolida por uma pedreira no passado dia 19 de novembro, bem como dos estudos e perspetivas futuras dos industriais e trabalhadores da região. O mesmo referiu ainda que “há estudos de longa data que indicam isto, o problema algumas vezes é que os estudos são de leitura complexa, quando não são estudos para gaveta”, deixando a ressalva de que “não digo que seja este o caso em particular”.

Contudo, sublinha, “muitas vezes os estudos são feitos e simplesmente vão para gaveta”, também por terem “linguagem complexa de se identificar”, sublinha Victor Lamberto.

“Aqui também houve um problema, os próprios licenciamentos não respeitaram o que a lei impõe”

Além disso, “aqui também houve um problema, os próprios licenciamentos não respeitaram o que a lei impõe”, porque “tem que haver uma distância mínima bastante grande relativamente à exploração”. Porém “o facto é que a estrada já lá existia e foi-se permitindo que as explorações mineiras fossem encostando à estrada”, algo que “não acontece só na zona de Borba”, que é de “30 a 40 metros, salvo erro”.

Simultaneamente, “até os próprios PDM’s [Planos Diretores Municipais] que foram elaborados, permitiram a aproximação das habitações e de outras infraestruturas das próprias pedreiras”, quando “as pedreiras já lá existiam, algumas delas têm 80, 90, 100 anos ou mais”.

Já no caso particular da cidade de Borba, em termos geológicos, “temos material extremamente fraturado”. Características que levam a que “as pessoas tenham muito mais atenção quando exploram, porque se a fracturação é maior e ainda por cima é mais irregular”, como é o caso de Borba, “quando se alteram dão origem a muito barro”, explica o engenheiro.

"Permitiram a aproximação das habitações e de outras infraestruturas das próprias pedreiras”

Por outro lado, “a zona de Borba, também, devido a esta fracturação toda, à circulação das águas, é rica em algumas calcificações, algumas grutas”. Desta forma, “toda esta mistura, paredes altas”, junto com o problema da exploração mineira com “descontinuidades”, refere, “que são não só as fraturas, mas rochas diferentes, mas também o facto de haver diferenças de quotas muito grandes”, ou seja, “têm a estrada e logo ao lado tem aquele fosso enorme de exploração”.

A juntar a esta situação, “temos as chuvas, que se vão infiltrar nas fraturas, que acumulava água à beira da estrada”, quando “o que temos que fazer é desviar a água o mais depressa possível dessas zonas, que é para a água não se acumular nos poros e facilitar os deslizamentos”. E ainda, “para juntar a isto tudo, temos, provavelmente, trabalhos debaixo da zona problemática e a utilização de algum fogo, que nós chamamos explosivos”. Tudo somado, estariam reunidas condições de facto para “uma catástrofe”.

“Não fechem as pedreiras, porque as pedreiras são essenciais para a economia da região”

Victor Lamberto refere, no entanto, que esta situação acontece “não só aqui”, pois “em mais de 400 buracos que existem aí, cerca de 40 ou 50 estão a laborar, mas há casos que eu tenho acompanhado e que já chamei à atenção de alguns industriais para tomarem medidas”. Porém, essas medidas “não são tomadas porque o processo geológico é lento” e “porque tem custos envolvidos”. No futuro, acrescenta, “se houver algum sarilho desses, sabe o que é que vão apontar, geralmente a culpa é sempre dos trabalhadores”. Situações sinalizadas em “Vila Viçosa, Borba e Estremoz”.

Apesar de ser necessário tomar medidas, o Eng. Geólogo deixa o alerta para que “não fechem as pedreiras, porque as pedreiras são essenciais para a economia da região”. Pelo que é necessário integrar “todo o tipo de conhecimentos, não só de especialistas, mas dos trabalhadores que estão lá todos os dias”. Pois estes “conhecem muitas coisas e os especialistas que agora irão fiscalizar não ouvem”.

Imagem cedida pelo Município de Serpa, recolhida na página pessoal de Facebook de Victor Lamberto.

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