Evora

Universidade de Évora investiga seleção genética de suínos para melhoria da qualidade dos produtos

Regional 08 Jul. 2020

Investigadores do MED da Universidade de Évora (UÉ) em colaboração com o INIA de Espanha acabam de publicar o primeiro artigo científico sobre o transcriptoma (conjunto de moléculas de RNA que existem num dado momento nas células) da gordura subcutânea das duas principais raças suínas autóctones de Portugal, a raça Alentejana e a raça Bísara. O estudo apontou mais de 450 genes com níveis de expressão diferentes na gordura das duas raças. Alguns destes genes poderão ser utilizados como marcadores na seleção genética destas raças, com vista à melhoria da qualidade dos produtos obtidos.

Explorar as funções do genoma ao nível do tecido adiposo nas raças autóctones portuguesas Alentejana e Bísara foi o principal objetivo da equipa de investigadores do projeto europeu TREASURE, particularmente “identificar até que ponto o perfil genético de cada raça influencia os mecanismos associados à deposição de lípidos e contribui para as características fenotípicas de cada uma dessas raças” sublinha José Manuel Martins, professor do Departamento de Zootecnia e investigador MED da academia alentejana.

O investigador realça que a raça Alentejana é caraterizada pelo seu crescimento lento e importante capacidade de acumular gordura subcutânea e intramuscular, enquanto a raça Bísara é caraterizada pelo seu crescimento mais rápido e uma capacidade para acumular gordura inferior à da raça Alentejana, ainda assim superior à verificada em raças suínas modernas.

No total foram identificados 458 genes que apresentaram diferenças estatisticamente significativas no que diz respeito à sua expressão na gordura subcutânea destas duas raças suínas autóctones. Destes, 263 foram identificados na raça Alentejana e 195 na raça Bísara frisa José Manuel Martins acrescentando que, certos genes-chave da síntese de ácidos gordos foram mais expressos no porco Alentejano, bem como genes envolvidos nos processos de alongamento e dessaturação dos ácidos gordos (reações bioquímicas que aumentam o número de átomos de carbono dos ácidos gordos e que transformam um ácido gordo saturado num insaturado), resultados que estão de acordo, tal como sublinhou o investigador, com as análises bioquímicas da gordura destes animais, indicando uma maior percentagem de ácido oleico (monoinsaturado) que a da raça Bísara e das raças suínas modernas.

Por outro lado, a análise funcional realizada apontou um papel importante de várias moléculas reguladoras na atividade lipolítica (degradação dos lípidos) na raça Bísara. Foi ainda apresentada a hipótese de a raça Bísara ser mais sensível à insulina que a raça Alentejana, que tal como a raça Ibérica, geneticamente semelhante, apresentará mais resistência. A resistência à insulina está, entre outras coisas, relacionada com a acumulação de gordura (obesidade), destaca.

Estes resultados, tal como refere José Manuel Martins estão de acordo com os perfis de adiposidade estabelecidos para cada raça, maior na Alentejana e menor na Bísara, bem como a característica mais monoinsaturada da gordura da raça Alentejana. O mesmo investigador MED destaca que “os alimentos ricos em ácidos gordos monoinsaturados são referidos como sendo menos prejudiciais para a saúde do consumidor que os ricos em ácidos gordos saturados”. Assim, estes estudos “ajudam a perceber em detalhe os mecanismos genéticos pelos quais os animais apresentam características diferentes mesmo estando em condições ambientais idênticas”, como foi o caso.

Para o sucesso deste estudo foram analisadas amostras de tecido adiposo de animais (com cerca de 150 kg) de ambas as raças, recolhidas no matadouro e guardadas a -80ºC até análise. Após extração do RNA ou ácido ribonucleico (moléculas com várias funções, como por exemplo a produção de proteínas) total das amostras com um kit específico, foi isolado e sequenciado o RNA mensageiro recorrendo a técnicas de sequenciação de nova geração em plataforma Ilumina® (RNA-seq). A análise bioinformática em ambiente R dos resultados produzidos (cerca de 90 gigabytes de dados) permitiu aos investigadores a quantificação da expressão dos genes e a identificação de quais se expressaram de forma diferente entre as raças. Para além disso, uma análise funcional recorrendo a um software bioinformático que agrega várias bases de dados, permitiu ainda identificar diversas moléculas reguladoras das principais funções biológicas representadas, realça o professor da UÉ.

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