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Uma em cada quatro crianças não ultrapassa 21 palavras por minuto na leitura, alerta estudo apresentado em Évora

Projeto LER, coordenado pela Universidade de Évora, estudou cerca de 6500 crianças e defende intervenção cada vez mais cedo para combater desigualdades na aprendizagem

Évora esteve no centro da discussão sobre o futuro da aprendizagem da leitura em Portugal com a apresentação do Projeto LER, uma investigação coordenada pela Universidade de Évora (UÉ) que identifica dificuldades significativas na aprendizagem inicial da leitura e alerta para a necessidade de intervir desde o pré-escolar.

O projeto foi apresentado no Auditório da Escola Básica Manuel Ferreira Patrício por Isabel Leite, professora de Psicologia da Universidade de Évora e coordenadora da investigação, no âmbito do ciclo de palestras “Psicologia Sem Fronteiras”, promovido pelo Serviço de Extensão de Psicologia à Comunidade da UÉ.

A investigação nasceu da preocupação com a descida do desempenho dos alunos portugueses em avaliações internacionais de leitura. Para Isabel Leite, os dados justificam uma intervenção nos primeiros anos de vida escolar, precisamente numa fase em que as dificuldades ainda podem ser mais facilmente corrigidas.

“Aquilo que a literatura científica nos mostra é que é muito difícil recuperar dificuldades de aprendizagem da leitura em anos mais tardios”, explicou a investigadora, defendendo que uma intervenção precoce é «muito mais eficaz» e representa também um menor custo para as famílias e para o sistema educativo.

A segunda fase do Projeto LER envolveu 184 escolas e cerca de 6500 crianças de diferentes regiões do país. Mais de 3000 alunos foram acompanhados em vários momentos do ano letivo, permitindo aos investigadores observar a evolução das competências de leitura ao longo do tempo.

O acompanhamento não terminou com o primeiro ano de avaliação. De acordo com Isabel Leite, as crianças continuam a ser acompanhadas durante o atual ano letivo, permitindo uma análise ao longo de dois anos.

O estudo concentrou-se sobretudo no pré-escolar e nos primeiros anos do ensino básico, considerados determinantes para a aquisição das competências de leitura e escrita. “É aí que tudo se joga”, afirmou a coordenadora.

Um dos principais sinais deixados pela investigação é a existência de uma evolução considerada insuficiente na aprendizagem inicial da leitura.

Segundo Isabel Leite, foi identificada uma “progressão lenta”, com uma parte significativa das crianças a apresentar resultados abaixo das expectativas quando comparados com referenciais internacionais.

Os números são particularmente expressivos: cerca de metade das crianças avaliadas não consegue ler mais de 39 palavras por minuto, enquanto um quarto não ultrapassa as 21 palavras por minuto.

A investigação identificou também uma grande diversidade nas competências que as crianças levam consigo para o primeiro ano. “Detectámos uma grande heterogeneidade nas competências linguísticas e cognitivas com que as crianças chegam ao primeiro ano de escolaridade”, referiu Isabel Leite, acrescentando que «as diferenças começam muito cedo».

Entre as conclusões mais relevantes do Projeto LER está a relação entre o desempenho escolar e o contexto socioeconómico das famílias. A investigação encontrou diferenças significativas nas competências linguísticas e na capacidade de aprendizagem das crianças em função do seu contexto familiar.

Isabel Leite considera que esta realidade ajuda a explicar parte das desigualdades observadas entre alunos e escolas. A investigadora deu como exemplo a comparação entre estabelecimentos públicos e privados. Embora as escolas privadas apresentem, numa primeira análise, melhores resultados globais, essa diferença deixa de existir quando os investigadores têm em conta a composição socioeconómica e cultural das respetivas comunidades escolares.

“O que mostra que, basicamente, continua a ser o efeito família a explicar grande parte desta progressão e destas grandes disparidades que nós encontramos no desempenho dos alunos”, afirmou.

O Projeto LER não se limitou a medir o desempenho dos alunos. Os investigadores compararam igualmente as avaliações realizadas por professores e educadores com as avaliações efetuadas por assistentes de investigação.

Esta comparação permitiu identificar áreas em que poderá ser necessário reforçar a formação dos profissionais de educação, sobretudo para que sinais de dificuldades de aprendizagem possam ser reconhecidos numa fase mais precoce.

Para Isabel Leite, produzir conhecimento científico só terá impacto se esse conhecimento chegar efetivamente às escolas. A coordenadora defende, por isso, que os resultados devem ser devolvidos aos professores e às comunidades educativas, de forma a apoiar decisões pedagógicas mais adequadas às necessidades das crianças.

Entre as recomendações apresentadas pelo Projeto LER está o reforço do trabalho realizado ainda antes da entrada no ensino básico. O estudo aponta para a necessidade de estimular a consciência fonológica no pré-escolar, aumentar o contacto das crianças com livros e histórias e promover hábitos regulares de leitura em casa.

O envolvimento das famílias surge igualmente como uma peça importante para melhorar o desenvolvimento das competências linguísticas e de leitura.

As conclusões procuram ainda contribuir para as políticas públicas, defendendo estratégias capazes de combater as desigualdades educativas desde os primeiros anos de escolaridade.

A apresentação do Projeto LER em Évora integrou o ciclo “Psicologia Sem Fronteiras”, iniciativa do Serviço de Extensão de Psicologia à Comunidade da Universidade de Évora.

Segundo Luísa Grácio, do Departamento de Psicologia da UÉ, o ciclo pretende aproximar a investigação científica da comunidade e criar oportunidades de diálogo entre o conhecimento produzido na universidade e a prática.

O Projeto LER surge, assim, como um exemplo dessa ligação, colocando em discussão em Évora um problema que começa muito antes dos resultados escolares mais tardios: a forma como as crianças aprendem a ler nos primeiros anos e as diferenças que já trazem consigo quando chegam à escola.

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