Escavações em Estremoz e Fronteira identificaram novas fases de ocupação, estruturas e vestígios que reforçam a importância do património arqueológico alentejano.
O verão de 2026 está a ficar marcado por novas descobertas arqueológicas no Alentejo, com campanhas coordenadas por André Carneiro, professor do Departamento de História da Universidade de Évora (UÉ), na Villa Romana de Santa Vitória do Ameixial, em Estremoz, e na Horta da Torre, em Fronteira.
Segundo informação divulgada pela Universidade de Évora, os trabalhos estão a revelar novos dados sobre a ocupação romana e pós-romana do território, contando com a participação de dezenas de estudantes nacionais e estrangeiros.
Em Santa Vitória do Ameixial, concelho de Estremoz, classificada como Monumento Nacional, as escavações permitiram identificar duas fases distintas de ocupação. Segundo André Carneiro, “a grande surpresa consistiu no facto de os muros revelarem duas fases de ocupação”, podendo existir uma construção mais antiga, eventualmente do século I d.C., posteriormente remodelada.A equipa encontrou ainda um fragmento arquitetónico de época paleocristã, para a qual, segundo o investigador, “nunca foi noticiada qualquer evidência”.
Em Fronteira, a Horta da Torre continua a revelar uma villa romana de grandes dimensões e com características únicas. O sítio possui uma área estimada de mais de 30 mil metros quadrados, embora apenas pouco mais de 500 metros quadrados estejam atualmente escavados. Um dos elementos mais relevantes é o stibadium, estrutura associada aos banquetes romanos. André Carneiro destaca que este “constitui o mais bem preservado exemplar conhecido no território português”.As escavações permitiram ainda encontrar ossos de bovinos e animais de caça, conchas de ostras e berbigão e recipientes cerâmicos utilizados durante as refeições e na iluminação dos espaços.
A investigação revela também que a Horta da Torre continuou a ser ocupada depois do abandono da villa romana. “Na imponente sala do stibadium (…) instala-se uma cabana que deixou buracos de poste no chão da sala”, explica o investigador, apontando para uma utilização posterior do espaço por pastores.
Além da investigação científica, os projetos assumem uma forte componente pedagógica. Em Santa Vitória do Ameixial participaram 10 estudantes, enquanto a campanha da Horta da Torre reúne 22 alunos de sete nacionalidades e 10 universidades.Para André Carneiro, estas experiências permitem aos estudantes adquirir competências científicas, mas também desenvolver capacidades de trabalho em equipa.
Os projetos procuram igualmente aproximar o património das comunidades. Em Estremoz está prevista a criação de um centro interpretativo e circuito de visita em Santa Vitória do Ameixial, enquanto em Fronteira têm sido desenvolvidas iniciativas de ligação à população e à economia local.“O maior desafio que temos na Arqueologia consiste em transformar o conhecimento em discurso para o público em geral”, afirma André Carneiro.
As campanhas coordenadas pela Universidade de Évora reforçam, assim, o potencial científico e cultural do património arqueológico do Alentejo e demonstram que o território continua a guardar importantes capítulos da história romana por descobrir.

