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Vale do Guadiana quer salvar tartaranhão-caçador da extinção ao proteger ninhos

Sendo uma espécie de ave de rapina migradora, presente no Parque Natural do Vale do Guadiana, o tartaranhão-caçador (Circus pygargus), encontra-se “em perigo” de extinção pelo Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Sensibilizar população e agricultores pode ser a chave para reverter processo.

Segundo o Instituto de Conservação da Natureza e Floresta, tem-se registado um declínio continuado desta população animal no território nacional, sendo que os casais nidificantes desta espécie no país representam cerca de 13% da população europeia (excluindo a Rússia).

Este declínio estará relacionado com o facto de muita da cultura cerealífera de trigo e aveia ter sido substituída por prados permanentes: como são cortados mais cedo, por vezes coincidindo com o período de nidificação da espécie, a maquinaria pode destruir ninhos e ovos, mas também crias ou tartaranhões adultos.

Por fazerem ninhos em terrenos agrícolas, os agricultores serão chamados mais uma vez a cumprirem a sua parte. “O que vai ter de acontecer é uma salvaguarda de uma área em torno do ninho de cerca de um hectare. Percebemos que quando há perturbação do ninho o casal sai. Se tiverem crias voltam ao ninho. Se tiverem ovos já não voltam. Isso está a condenar, de alguma forma, a espécie”, explica ao jornal Público Olga Martins, diretora regional de Conservação da Natureza e Florestas do Alentejo.

Assim, é preciso ir ter com os agricultores e pedir-lhes que salvaguardem toda aquela área em volta dos ninhos para que não haja qualquer perturbação. “Durante um período, os agricultores não vão poder cortar o feno nem fazer trabalhos naquela área. Isso pode representar uma perda de rendimento e é isso que tem de ser compensado [monetariamente] de alguma forma”, explica Olga Martins, esperando contar com o apoio do Ministério da Agricultura nesse trabalho.

De acordo com a diretora regional, “estamos num território com milhares de hectares. Mas é um território de áreas privadas. É muito difícil trabalhar na conservação da natureza desta forma”. E foi esse o propósito da fundação deste parque: envolver agricultores, caçadores, habitantes para que fosse feito um esforço na salvaguarda daquela paisagem e dos seus valores naturais e culturais. E, ao mesmo tempo, que aquele território pudesse ter um desenvolvimento sustentado da região e melhorasse a qualidade de vida dos seus habitantes.

Esteve para ser um parque regional, mas a então ministra do Ambiente, Teresa Gouveia, candidatara-se às eleições legislativas como cabeça de lista pelo distrito de Beja, e o parque passou a ter gestão nacional. A proposta de criação havia de ser aprovada a 17 de julho de 1995, e formalizada a 18 de novembro. Mas a sua direção ficou nas mãos de que bem conhecia aquele território: o arqueólogo Cláudio Torres, então responsável pelo Campo Arqueológico de Mértola. No ano passado, cumpriu-se o quarto de século deste parque, mas por conta da pandemia as comemorações ficaram-se por alguns “webinars” e pelo lançamento de um livro comemorativo.

Por agora, a missão tem sido cumprida: “os proprietários, os agricultores, os gestores das zonas de caça acolhem-nos muito bem. Tudo o que aqui é possível encontrar só é possível porque eles têm feito a parte deles”, nota Olga Martins.

Em relação ao lince-ibérico, espécie mais popular reintroduzida no parque, a responsável assume que “é preciso haver coelhos, alimento, mas depois temos de ter algo muito importante que é o acolhimento pelas pessoas. Podemos dizer que foi um projeto tremendo. Já temos mais de 200 animais aqui no Parque Natural do Vale Guadiana”.

Recorde-se que os primeiros estudos para a reintrodução do lince em Portugal começaram ainda no final da década de 1990. Em dezembro de 2014, haviam de ser libertados os primeiros felinos (um casal) num cercado de adaptação em Mértola e, em fevereiro de 2015, abriram-se as portas deixando-os ir para o meio natural.

Segundo explica a responsável, está agora em curso a projecto LIFE Lynxconnect, juntamente com Espanha, que pretende criar “uma metapopulação”. A ideia é criar condições para que os linces circulem mais entre territórios e passem “as fronteiras” dos seus núcleos. “Apesar de eles já circularem, queremos garantir que há zonas de contacto, corredores ecológicos para que possam circular livremente com habitats favoráveis entre os vários núcleos e assim aumentar a diversidade genética da espécie”, explica Olga Martins.

No entanto, não é só o lince que tem beneficiado da melhoria de habitat. “A águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti), por exemplo, tem beneficiado muito do trabalho que foi feito inicialmente a pensar no lince, nessa questão de criar habitat para o coelho-bravo, construindo marouços, fazendo sementeiras, com o objetivo de aumentar a sua população”, diz. “A prova disso é que passamos de um indivíduo para 21 casais nidificantes em 2020. Nunca estamos só a trabalhar uma espécie. Trabalhamos o ecossistema”.

Via Jornal Público

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