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Segunda-feira, Abril 22, 2024

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EXCLUSIVO RC: Grande Entrevista ao Bispo das Forças Armadas sobre Pedofilia na Igreja(c/som)

Os casos de abusos sexuais de menores pela Igreja Católica  tem sido um tema à escala global e que muito tem marcado os últimos meses .                                                                                                                                                               

A Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais contra Crianças na Igreja em Portugal apresentou no passado dia 13 o relatório final sobre o seu trabalho tendo identificado pelo menos 4.815 vítimas.

À margem da celebração da Eucaristia, presidida por D. Rui Valério, Bispo das forças Armadas, no âmbito da peregrinação militar realizada pelo Regimento de Cavalaria nº 3 de Estremoz ao Santuário de Nossa Senhora da Conceição, a Rádio Campanário realizou uma grande entrevista ao Bispo das Forças Armadas  sobre esta temática

                                                                                                           

Leia e oiça aqui:

 

RC – Senhor Bispo em relação às dificuldades que a Igreja está a enfrentar neste momento com tantos casos desta questão da pedofilia, que não deviam existir em instituição nenhuma e muito menos na Igreja que deve dar o exemplo, sente-se triste com esta situação?

D. Rui Valério- “A palavra  principal é para ser dirigida ás vítimas e em nome das vítimas. Eu acho que nunca a Parábola do bom Samaritano foi tão atual e aplicada a este contexto como está a ser atualmente.

Nós estamos a esquecer muito as vítimas, e é o tempo de falar delas, é o tempo de ir ao encontro das vítimas, é o tempo de colocá-las no centro e é para elas e por elas, fundamentalmente, que eu aqui venho para rezar e para levar a Deus Nosso Senhor, solicitando o auxílio da Mãe, para que junto de cada uma e de cada um daqueles que foram abusados , sintam a presença e a proteção e a ternura de Nossa senhora.

Quem foi violentado e abusado, possui na alma uma cratera aberta de sofrimento que as terapias humanas ajudam a preencher, ajudam a sarar mas a cura definitiva é proveniente apenas de Deus.

É por isso que eu hoje trago no meu coração, no meu pensamento e é por isso que eu ao celebrar a Eucaristia aqui neste Santuário, aos Pés de Maria, vou colocar todas as vítimas dos abusos.”

RC- Como é que tem visto que a condução por parte da Igreja e decisores desta situação?

D.Rui Valério – “Eu só posso pronunciar-me acerca da maneira como nós nas Forças Armadas e Forças de Segurança agimos e vou-me limitar a falar da minha Igreja, da minha diocese. Para nós, graças a deus, em primeiro lugar já há muitos anos que temos uma estruturação de ação, portanto não foi preciso chegar ao ano de 2023 para nos estruturarmos e para promovermos ações de resposta , já temos essa estruturação.

E por isso, como nós estamos a funcionar num universo muito particular, que são militares, que são elementos das forças policiais , então nós temos já todo um procedimento imediato, instantâneo que se vai percorrer.

Quanto à maneira como a Igreja em Portugal está a reagir,  eu não sou tão crítico quanto tenho  visto por aí porque aquilo que eu tenho verificado é que existe da parte de todos os Bispos um interesse em pormos em prática aquilo que são os ditames do Papa Francisco, ou seja, tolerância zero, reparação imediata do sofrimento acarretado às vitimas.

Agora estamos a falar de situações que envolvem pessoas, muitas pessoas e naturalmente que muitas vezes, os timings, os tempos, não são tão previsíveis , tão ao encontro daquilo que nós gostaríamos que fosse na sua rapidez. No entanto, todas as dioceses se estão a mobilizar, eu posso garantir isto. Nós também, dentro das Forças Armadas, aliás terminou hoje mesmo a Constituição de uma nova Comissão que vai acompanhar essas situações e aquilo que para nós deve estar sempre em primeiro lugar , sempre, é as vítimas porque conhecer ou encontrar alguém que foi abusado, desse ponto de vista,  é encontrar um combatente, em primeiro lugar, alguém que não obstante o sofrimento, não obstante as feridas, não obstante os fantasmas, mas que ao longo da sua vida, diáriamente, renovou  a vontade, a força, de ultrapassar todas as dificuldades.”

RC- Relativamente à nova Comissão que diz ter sido constituída, tem total certeza nesta Comissão sendo que a Igreja, e isto veio agora a Público, ocultou/”escondeu” muitos destes casos que agora vieram a público, sente que é uma Comissão que está a ser tutelada pela Igreja e portanto há uma total confiança nela?

D.Rui Valério – “O nosso propósito, a nossa vontade, o nosso desejo é que a Comissão Nacional continue, prossiga o trabalho, a obra  da Comissão Independente auxiliada pelas sugestões preciosas que a Comissão independente deixou e portanto eu digo que, tal como a Conferência Episcopal na sua última reunião de conselho permanente disse, isto agora não é possível voltar mais atrás, estamos em movimento e portanto todas essas situações dolorosas, tristes, condenáveis a que se referia, de encobrimento, de ocultação , tudo isso, eu quero acreditar, que tem um ponto final, já pertence à história, a partir de agora já não é mais possível isso.

Até porque cada ato de encobrimento é o aumentar o sofrimento de quem foi abusado. Eu repito, é as vítimas que têm que estar no centro de todas as nossas preocupações e é delas que devíamos estar a falar; era de perspetivas e de estratégias para ir ao seu encontro e portanto eu quero, e daqui faço este desejo, que a Comissão verdadeiramente organize, se organize , nos organize, para virmos ao encontro de reparar aquilo que precisa de ser reparado que é colmatar o sofrimento das vítimas.”

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